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terça-feira, 14 de agosto de 2012

SÃO PEDRO NA BERLINDA ?


              Paolo Gabriele (atenção, é pá-olo e não paô-lo ) mordomo de Sua Santidade Benedito XVI, está em prisão domiciliar dentro do Vaticano, onde amarga a acusação de se  apropriar de um cheque de cem mil euros e outras coisas, inclusive documentos secretos da Santa Sé. O episódio traz à memória, trinta anos depois, a saga dos “Banqueiros de Deus”, financistas que administravam criminosamente as finanças do Vaticano, através de estranha ponte entre o Estado Papal e o crime.
            Quem não acompanhou à época, pode buscar na Internet os desconchavos do economista Michele Sindona, do banqueiro Roberto Calvi, do bispo Marcinkus e outros figurões, que manobraram bilhões de dólares do Vaticano em paraísos ficais e protanizaram outras falcatruas. De permeio, as sérias suspeitas do assassinato de João Paulo I, que fazia um grande expurgo na direção das instituições financeiras da Santa Sé, nas quais prelados e seculares, todos  de conduta duvidosa, dançavam  cirandas secretas e lucrativas.     
           Entronizado João Paulo II, os tais financistas foram reconduzidos aos seus cargos, fato que culminou no escândalo do Banco Ambrosiano. Sindona foi assassinado na prisão, Calvi foi encontrado pendurado numa corda numa ponte sobre o Tâmisa (“O poderoso chefão 3”...) e Marcinkus, que usava uma pistola presa à canela e dizia que o Vaticano não era governado por ave-marias, se auto-exilou nos Estados Unidos, cheio de imunidades diplomáticas e os cambau.   
            Coincidência, estou lendo “Biografia não autorizada do Vaticano”, do espanhol Santiago Camacho, editora Planeta. Santo Deus! Com citações e referências autorais, ali estão coisas de arrepiar. São manobras de Pio XII para acoitar criminosos nazistas e proteger os croatas da organização uastashi , que, na ânsia de uma Croácia católica, trucidaram a sangue frio milhares de sérvios em 1941; e também os campos de extermínio croatas comandados por franciscanos, dentre eles os frades Miroslav Filipovic, comandante do campo de Jasenovac, onde milhões de judeus e seguidores da Igreja Ortodoxa foram trucidados, e Pedro Brzica,  que, pessoalmente, teria matado 1.350 prisioneiros, sob a supervisão do cardeal primaz Alojzije Stepinac - elevado por João Paulo II à categoria de beato.
            Além disso, as ligações vaticanas, entrelaçadas pelos mesmos "banqueiros divinos", com os capi  Gambino, Lucky Luciano, Joe Masseria, Vito Genovese & Cia; as operações de lavagem de dinheiro da máfia siciliana; o estouro dos bônus falsos no valor de 950 milhões de dólares, encomendados ao especulador austríaco Ledl pelo Cardeal Tisserant e colocados nos Estados Unidos em 1971; as trapaças sucessivas com a fortuna do poderoso IOP-Instituto de Obras Religiosas (Marcinkus e um punhado de maçons da Loja Propaganda Due,  lá, deitando e rolando); os rombos colossais nas reservas do Banco do Vaticano e muitas outras embrulhadas ficanceiras/eclesiais ... Papagaio! É de estarrecer. Se tudo isso é verdade, sei não. Melhor não saber.
           
          É onde eu te falo                      
           

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

PÍLULAS


            Por mais enfadonho que seja, o julgamento do Mensalão permanece sob os fachos da mídia. Mas, ao que tenho ouvido nas rodas forenses, a comunidade nacional não deve ter muita esperança de resultado a curto prazo, pois os famosos “pedidos de vista” antes da sentença virão, é quase certo. Ao fundamento de que certos argumentos levantados na tribuna merecem avaliação, esperam-se um ou dois pedidos de vista, feitos até por ministros que já tenham voto pronto. Geralmente, o efeito maior desses hiatos é o de atrasar a decisão final do plenário, em nome do “due process of law”, ou devido processo legal.
           
            Roberto Jefferson, abatido e defecado, ruge diatribes contra Lula. Agora  (e só agora)  ele afirma de pé junto, que o ex-presidente sabia, sim e muito bem, da maromba do Mensalão - fato que negou quando fez as denúncias do esquema de compra e venda de parlamentares. Não proponho que Lula ignorava o tal esquema nem afirmo o contrário; afinal, eu não estava lá pra ver. Mas o disse-não-disse do  Jefferson tem uma lição: denúncia pela metade é sempre temerária, já que trapalhadas dessa natureza não costumam ficar para sempre encobertas. O denunciante que não põe todas as cartas na mesa acaba, como um quixote-de-meia-tijela, encarnando o “cavaleiro da triste figura”.  

            O Brasil tenta, sem êxito, ser uma grande democracia ao estilo americano. Mas a questão é de DNA. Os Estados Unidos têm alicerce inglês, e inglês, ao que consta, é um coquetel anglo-saxônico-viking-normando, que tem a objetividade entre as suas principais características. Já o Brasil adotou, nem podia ser o contrário, o sistema legal português, excessivamente detalhista, marcado pela prolixidade e pelo nhenhenhém gosmento de marchas e contra-marchas no curso do processo mais singelo. Navegando sobre essa gosma que é o Direito Positivo Brasileiro, advogados criminalistas “deitam e rolam”, sempre descobrindo uma fresta, que alargam, por onde enfiam as suas famosas catimbas forenses. O Brasil tem duas grandes enfermidades que não constam do Código Internacional de Doenças: voto secreto e leis escorregadias. Será que isso vai mudar?

            Os jornais de hoje - como os de ontem, acusadores implacáveis ou afagadores compassivos - falam do natalício de Fidel Castro. Para eles o aniversariante não é ditador; é “comandante”. Esse título, na voz do povo, tem duas faces - uma de ordem vocabular: comandante é quem comanda e isso Castro faz desde 1959, comandando com mão de ferro uma ditadura anacrônica e vulgar; outra de ordem patológica, como já disseram por aí: Castro é um caquético comatoso, encarnação do “coma que anda”, ou “coma andante”. Acho que isso é falta de piedade com um ancião. Mas omiti-lo da lista onde têm assento perpétuo Videla, Pinochet, Mao, Assad, Kadaffi e outras pérolas, é atitude de extrema compassividade ideológica...

            É ONDE EU TE FALO....
       
      

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

PAOLA, DITONGO DECRESCENTE


“Bem, cada um se entende a seu modo” (André  Cavaleiro,  Governador   Civil de  Oliveira,  em  A  Ilustre  Casa   de  Ramires , do iluminado Eça de Queirós).
                      
Ditongo. É como se classifica a união de duas vogais que formam uma sílaba; pode ser crescente e decrescente. No ditongo decrescente há uma vogal que soa primeiro e uma, chamada semivogal, que soa depois, cujo som é atenuado, como, p. ex., em pai, boi, comprei ; como é perceptível, a vogal “i”, nestes casos, soa de forma muito branda, razão pela qual se classificada como semivogal. Já no ditongo crescente a semivogal, branda, soa primeiro e a vogal, à qual se dá ênfase na pronúncia, soa depois, como em diário e quando, onde a vogal “a” é claramente tônica e o “i” e o “u” (semivogais) têm um som acanhado. Quando, no encontro vocálico as vogais se prununciam em sílabas separadas, acontece o hiato, como em dieta  e hiato. Hoje estou gramatical. Mas, estas recordações das aulas de Português surgem a propósito de quê?
Explico. Pelas ondas de Hertz, o rádio cita um nome próprio, um nome feminino muito conhecido na Itália: Paola – correspondente à nossa Paula. Só que a cidadã, no caso, era “Paô-la”! Isso mesmo: Paô-la. 
Homessa! Onde foram arrumar essa “paô-la”, assim, ferozmente hiatizada e tão desconforme com a prosódia? Ah, não sabem! Pois eu sei. Quem ensinou os brasileiros a chamar as Paolas de Paô-las foi o galo. Não o Galo, a brava equipe da camisa branca e preta, que vive às turras esportivas com o igualmente aguerrido Cruzeiro Azul Celeste. Não. Foi um galo comum, ave galinácea, o prosaico macho da galinha, que canta nas alvoradas.
Pois é. Um galo cantou, algures, não se sabe onde. Quase sempre é assim: ouve-se o galo cantar, mas não se sabe onde. Alguém leu o nome Paola, que pode ser Paola Stefani, Paola Sforza, Paola da Rimini; ou uma católica Santa Paola, da Toscana, de Cartago, da Espanha, de Damasco, mesmo Santa Paola Frassinetti, fundadora (ver ilustração) da Congregação das Irmãs de Santa Dorotéria, não importa. Alguém leu esse nome e gostou. Gostou, mas não quis saber se essas senhoras, santas ou não, eram “Páolas” : imediatamente denominaram-nas “Paô-las”. Pronto! O trem disparou. Começou a chover paô-la pra todo lado, do Oiapoque ao Chuí. 
Disseram-me que a Corte de Windsor edita anualmente estatísticas especiais no Mad’s Train, muito respeitada publicação real, que no Brasil se chama Trem de Doido ; e a edição de 2.010  mostra que o Brasil é o maior celeiro de “paô-las” do mundo, informação chancelada pelo Guinness Book.      
Agora, vem cá. No Brasil, Washington não é Vazing-ton ; Marie não é Marí-eDa Vinci não é Davinssi nem Mary Stuart é Marí  Istuárte.  Por quê? Porque todos estão cansados de ouvir as pronúncias corretas desses nomes. Mas os que leram Paola não sabiam que Paola é nome italiano, como não sabiam que em italiano se diz páola (ditongo decrescente); leram “Paô-la” e “paô-la” ficou. Conheço Paô-las que viram onças quando alguém lhes diz que paô-la  não existe na língua italiana. E respondem, cheias de orgulho, que elas são e serão Paô-las.
            Mas, então, por que não foram registradas como Paulas (ditongo decrescente) em Português, mesmo? É no que dá essa mania de copiar nomes doutras terras sem procurar saber como se pronunciam esse nomes. Só falta (e não é muito difícil) que o autor das famosas Epístolas passe a ser São Paô-lo, já que em Italiano ele é Paolo.
Alguém dirá: Ah, mas em Portugal o Sporting, valoroso time de futebol, é Ish-portíngue! Bom, em Portugal, como no Brasil, acontecem coisas extraordinárias.   

É onde eu te falo...
          


terça-feira, 7 de agosto de 2012

O PÃO DOS EMBOABAS


          
            Pois é. A Guerra dos Emboabas ainda rende os dividendos comuns aos conflitos de sangue. Deflagrada no começo do Século XVIII, quando os paulistas tentaram se apropriar das jazidas de ouro de Minas Gerais, terminou com a derrota dos invasores na célebre escaramuça do Rio das Mortes. Passados trezentos e poucos anos, parece que os paulistas não conseguiram exorcizar os  fantasmas do ressentimento. Malogrados no sonho de ganhar o ouro mineiro, investem na apropriação das quitandas mineiras: o pão-de-queijo e a broinha de fubá de canjica; por enquanto.
            Nas publicações especializadas e na televisão é bem visível o movimento apropriador. O mineiríssimo pão-de-queijo-nosso-de-cada-dia já aparece - e não timidamente - com certidão de nascimento passada por jornalistas e culinaristas bandeirantes: ele teria nascido, segundo esses arautos, em São Paulo !!! Tanto assim, diz um escritor do metier culinário do Rio Tietê, que a primeira loja brasileira especializada em pão-de-queijo foi aberta, há muitos anos, em São Paulo... Tem até um japonês do Anhangabaú, fazendo pão-de-queijo na televisão e alardeando que se trata de uma “especialidade brasileira”; não mineira, especificamente...
            Conversa fiada. O Brasil ignorava o nosso bolinho de polvilho doce e queijo minas  curado até a entronização de Itamar Franco no governo da República. Como é notório, o Presidente Itamar se perdia por uma boa fornada de pão-de-queijo, fato que a mídia divulgou com o mesmo alarde jocoso com  que a Wall Street paulistana investiu contra o Ministério Itamariano:  ressentida com a ausência dos seus conterrâneos nas pastas ministeriais, chamaram-no de “Ministério Pífio”. Aliás, a acidez bandeirante foi superlativa quanto ao ilustre mineiro Paulo Hadad, indicado para o Ministério da Fazenda. Todos se lembram.        
            Como se lembram que a Rede Globo, num sketch  humorístico, mostrava, na fala do locutor, “o Presidente Itamar governando” - um Itamar caricato, com topete de meio metro, devorando uma bandeja de pão-de-queijo como um cachorro esfomeado, engolindo com sofreguidão e cuspindo farelos pra todo lado. Desrespeito. De todo modo, foi aí que o Brasil conheceu o pão-de-queijo.
             Insatisfeitos, os vencidos na Guerra dos Emboabas, já se apropriam também das nossas broinhas de fubá-de-canjica. Essa quitanda, preciosa com um bom café coado, dourada e cheirosa, já não é primazia mineira: agora chamam-na de... “broinha paulista” ! Quem “agüein-n-ta” ?
Parece fixação. Logrados no intento de abocanhar as pepitas douradas, partem, séculos depois, na perseguição das douradas  quitandas mineiras. Um Eldorado de forno?  
           
É onde eu te falo...       

PS - Eu já deveria, faz tempo, ter encarecido no "É onde eu te falo" a minha aversão ao tal Acordo Ortográfico que anda por aí. Não o adoto, é claro; notadamente quanto ao hífen e à acentuação gráfica. E no meu blog escrevo como quero; ou melhor, segundo as boas regras que custei a aprender. Nem as alfaias (aliás, muito pretensiosas) da Academia Brasileira de Letras que me farão endossar as respectivas louçanias.   

terça-feira, 31 de julho de 2012

LILITH E EVA... QUE MULHERES!


            A lenda de Lilith foi deliberadamente apagada da memória dos povos. Seria um mito de origem suméria ou babilônica que, consta, figura na Cabala hebraica - tratado que, entre um ror de simbolismos, conteria o sentido secreto da Bíblia. Conforme a tradição, era o protótipo da mulher fatal; lindíssima, altaneira, sensual ao extremo, envolvente, sedutora e, para maior alindamento da sua história, muito levada. Diz-se que viva no Jardim do Éden antes de Eva e foi a primeira esposa de Adão. Este seria meio frouxo e, como todo frouxo, um machista de quatro costados. Ora, para um marido assim, a esposa menos indicada seria a adorável Lilith, que era muito independente e tinha PHD na arte de fornicar, do que Adão não era exatamente um adepto.
Daí o inevitável: Lilith abandonou o Éden e foi viver alhures. Alguns falam que foi expulsa do Jardim por discordar das prescrições sexuais ali vigentes:  Lilith não queria ficar por baixo de Adão durante o... ato, como previa o Regimento Interno; outros afirmam que o espírito independente de Lilith bateu de frente com o dito regimento, que vedava o livre-pensar. Assim e como ambas as condutas tipificassem o crime de desobediência, ela foi expulsa. Também já ouvi que Adão, ser primitivo, só queria emprenhar a linda consorte e cumprir preceito do verbo multiplicar, contra o que ela reagiu, porque era muito vaidosa da própria silhueta. De todo modo, Lilith deixou o Jardim e foi preciso construir a nova comodatária do Éden, donde surgiu Eva, a feiosa. A saga de Eva é por demais conhecida, tanto quanto a do povoamento do mundo.
Como nesse terreno tudo são lendas, fico à vontade para falar de uma outra, da minha lavra: Lilith e Eva eram usufrutuárias simultâneas do Jardim Parque Éden. Eva, moldada às pressas pelo incorporador  do Jardim, saiu mal arrumada e fria; Lilith, primorosamente esculpida pelo gênio Paá-Vir-Ahda, adversário do incorporador, era um tantão de mulher . Adão, obviamente, se encantou com Lilith e deu um chega-pra-lá na Eva. Justamente o que pretendia Paá-Vir-Adah, um pândego sacaneta, que adorava molecagens e gostava de atrapalhar os planos do incorporador. Daí, justamente, o desterro de Lilith.
            Do que precede, por essa ou aquela razão, o establishment  religioso teve motivo para apagar Lilith do romanceiro do Gênese, e se concentrar em Eva. Isso me lembra uma façanha stalinista: Laurenti Béria era chefe da polícia secreta de Stalin, o celerado; caiu em desgraça e foi executado. E para que o povo russo se esquecesse de Béria, Stalin mandou recolher todas as enciclopédias e compêndios escolares existentes no território e reescrevê-los... sem o verbete “Béria”. Não sei se a comunidade soviética se esqueceu do sujeito, mas a comunidade religiosa se esqueceu de Lilith.
            No final das contas, Parque Éden desandou em revertério: Eva comeu a maçã e deu no que deu. Feiosa ou bela, Eva não era a songa-monga que se esperava: foi a primeira insurgente da História e se revelou, tanto quanto Lilith, uma livre-pensadora corajosa. Entendendo-se capaz de determinar a sua própria vida, arrostou o Regimento Interno do Jardim e mandou tudo pras cucuias, dizendo: - Ninguém me diz o que fazer, pombas! 
            Por essas e por outras é que não vou muito com essa coisa de dogmas e peias. E encaro Eva como heroína, a mulher que revelou ao mundo a maior atributo do ser humano, qual seja, o de pensar livremente.

            É onde eu te falo...         

segunda-feira, 30 de julho de 2012

COISAS PRIMITIVAS


             O boi tem quatro estômagos, ouvi dizer. Prodígio? Não. Apenas necessidade de um sistema digestivo especial. Prodigiosas são as autoridades fiscais brasileiras que têm quatrocentos buchos. Pois é. Mais que as pessoas físicas, os empresários reclamam contra a carga tributária a que se sujeitam. Com razão uns e outros. A queixa procede. Políticas fiscais primitivas são próprias de governantes ineptos e administradores rudimentares, para quem governar é uma peça em dois atos: tributar e aumentar os tributos. Fazer o quê?
            As empresas brasileiras fazem o diabo no afã de abrandar a fome tributária nacional – sem êxito, porque o Parlamento, fraco e interesseiro, não quer desgostar o Executivo, que lhes abre as torneiras politiqueiras. Desiludidos, os empresários inventam saídas que lhes atenuem o desembolso – nem tão grande, afinal, visto que repassam ao consumidor cada extorsão que lhes faz o governo, como é notório.
            A mais nova idéia, que leio nos jornais, foi idealizada pelos vitivinicultores gaúchos: eles querem, via tributação forte, encarecer o vinho estrangeiro, na suposição de que isso fomentará o consumo dos vinhos nacionais. Solução que, é quase certo, despertará os sorrisos das autoridades fiscais. É o mesmo que perguntar à saúva se ela quer brotinhos suculentos.  
             No entanto, tenho cá minhas dúvidas de que a proposição gaúcha renderá os trunfos que pretende. O encarecimento do produto estrangeiro não vai forçar, necessariamente, a opção pelo vinho brasileiro; até porque, na proposta dos vinhateiros nacionais, estariam fora do arrocho governamental os vinhos chilenos, paraguaios e argentinos - que são, justamente, os estrangeiros mais vendidos aqui, donde a possibilidade de não ser assim tão saborosa a fatia originada do encarecimento dos vinhos forâneos.
            A medida em questão pode até gerar algum ganho, mas dificilmente ele será expressivo. Barreiras fiscais são faca de dois gumes, todos sabem. Melhor fariam os produtores gaúchos se batessem o pé diante de Suas Majestades, os arrecadadores de impostos. E tratassem de baratear os seus vinhos no mercado interno, pelo menos até que as bocas brasileiras percebessem como são excelentes os vinhos da Serra Gaúcha.
            Reconheço que isso é tarefa de alta carregação: no seu primitivismo, os governantes brasileiros qualificam o vinho (qualquer um) como “artigo de luxo”, ao invés de considerá-lo item normal da dieta – como nos países mais evoluídos mentalmente.
            Por mais, adegas e restaurantes estrelados não deixariam de vender vinhos portugueses, espanhóis, italianos, californianos, da Nova Zelândia, da África do Sul, da Austrália, até do Butão
(não conheço quem já tenha tomado vinho desse lugar, mas por via das dúvidas...). Enófilos abonados e babacas faroleiros não se privariam do vinho estrangeiro por trinta mirréis a mais ou a menos. 
            O grande perigo é que o tiro saia pela culatra: não se pode confiar nas autoridades fiscais brasileiras; se a importação cair um pouco, elas vão, isso sim, espoliar mais a vitivinicultura nacional. Uma coisa é certa: os palácios do poder não hospedam muitos bebedores de vinho, razão da má vontade governamental em incentivar-lhe o consumo. Além disso, há grupos que já divulgam via Internet, até com foros ditos científicos, que Cristo não bebia vinho, mas suco de uva. Só não explicam se de embalagem Tetra Pak.
     
              É onde eu te falo...       

DOENÇA AINDA SEM CURA


Coisa repulsiva é essa excrescência chamada ditador. Nestes tempos de Século XXI, esse bicho deveria ser apenas um verbete no dicionário das monstruosidades para sempre extintas. No entanto, ainda existem ditadores; que vingam graças ao atraso dos povos. A Humanidade precisa evoluir muito antes de erradicar essa praga, mas esse estágio de evolução não se vislumbra nos horizontes do Planeta.
Kadafi, Ceausesco, Brejnev, Pinochet, Mao et caterva, esses, felizmente, já foram pra casa do... pra bem longe; mas ainda devem ao mundo o seu último suspiro fedorento alguns ditadores, inclusive os que amargam prisão perpétua e aqueles que a mídia incensa com o título de... presidente !!!
A bola da vez entre os ogros que não largam o osso, é um sírio. A simpática Síria, que nos mandou tanta gente boa e culinária saborosa, definha a olhos vistos. Cidades, como a generosa Alepo parece a Berlim que os russos devastaram em 1945: um monte de escombros com cheiro de cordite. A guerra civil está em plena efervescência, enquanto a ONU, inoperante e boba, manda os seus fantoches passear nas áreas de conflito a pretexto de arrumar a paz.
Os aproveitadores da guerra - da qual eles próprios acenderam o estopim - já escolheram os seus lados e, como sempre ocorre, usam a Síria como palco das suas quesílias econômico-ideológicas. E dançam a cirandinha de sempre, entre rodeios falsos e muita conversa fiada. Na verdade, os dois polos estão naquela de "eu quero é txum, eu quero é txa..." 
Como o mundo já viu e sentiu, ideologia é um tipo de câncer sem cura. Não há ideologia que preste; todas são podres e fedem mais que o lendário enxofre que, segundo os padres de Idade Média, o Capeta exalava. E o povo sírio lá, morrendo como moscas ao redor das suas casas arruinadas, “ a padecer jugo e vitupério do torpe ismaelita cavaleiro” (apud Camões).     
 Ditaduras são ditas, mas não duram, porque ditadores - que bom! - morrem. Ainda que  tardiamente, como é o caso de alguns, carcaças insepultas, que vivem..., ou melhor vegetam, arrastando os pés, tossindo seco e engrolando palavras ininteligíveis nas bocas desdentadas, onde o cuspe nojento se mistura às gosmas do catarro - inescondível sinal de degeneração. Eternos, como preconizou Mr. James Bond, só os diamantes... 
A boa perspectiva é que o ditador sírio também vai sif..., quer dizer, se danar, mais cedo ou mais tarde. A previsão ruim é que, quando isso acontecer, a Síria acabará entrando no mesmo desatino do Egito e da Líbia, quando os adversários da ditadura, enfim vencida, começarem a brigar entre si pelo poder. Isso não muda.

  É onde eu te falo...
                    
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sexta-feira, 27 de julho de 2012

POR QUE NÃO UMA SOBREMESA VOTIVA?


        Chega-me de Portugal a receita de um doce que reina, sem jaça e contestação, nas mesas d’além mar. Não há festa em que ela, quando chamada, fique revel. Ao fim das ceatas copiosas, ela se apresenta sempre, gloriosamente acomodada em folhudo novelo de fios de ovos. Vem, muito pimpona, na rica travessa de porcelana que certamente serviu a muitas gerações dos antanhos, e espraia o seu corpo amarelo ondulante em  forma de “s” - para que cabeça e cauda não ultrapassem o comprimento da louça.  
            Mas... Que raio de sobremesa tem cabeça e rabo? Pois essa tem. E tem porque o doce é cuidadosamente esculpido no formato da lampreia, peixe da família dos Agnatha, dizem que o mais primitivo dos vertebrados existentes. Como peixe é de uma feiúra atroz, mas como arte confeiteira é digno de um banquete na Mansão dos Bem-aventurados. Quando surge na bandeja, os comensais deliram; ali está uma lampreia doce, cujos detalhes são desenhados com cerejas e creminhos coloridos, olhos, boca, guelras, até escamas e língua. Estamos falando da celestial ... txam-txam-txam-txam... lampreia de ovos! Sim, a lampreia de que só dão conta confeiteiros portugueses de alta linhagem.
            É raro o livro de Eça (sempre ele, genial gourmand!) onde uma delas não apareça na hora do Porto, depois da comezaina de bacalhaus e da frangalhada com ervilhas que sucedem à pratada de
ovos com chouriço. Aliás, vai um conselho: nunca leia Eça com o estômago vazio...
            Pois é. Mas a lampreia de ovos (os mestres da prosódia mandam pronunciar lamprêia (com “e” fechado) é um doce que, no bom jargão lusitano, se pode dizer... bestial ! A começar pela quantidade de ovos que se quebram, de sorte a recolher cinco dúzia de gemas – isso mesmo: 60 gemas!!! Imagino os esgares e horrores que se pintam nas caras de dietistas entojados e seus entojadíssimos discípulos diante de um doce que leva coisa de meia grosa de gemas de ovos!
            É mais uma das delícias “conventuais” da terra de Afonso Henrique, cujos galinheiros, conforme o Guinness Book, comportavam mais galinhas que torcedores no Maracanã em fim de campeonato. Era a época em que monjas e noviças sem ocupação mais rude, se juntavam nas vastas cozinhas dos conventos a inventar gulodices açucaradas, com as quais regalavam padres, prelados e confessores, notoriamente esganados e barrigudos.
Esses religiosos conviviam bem com os pecados veniais, notadamente o da gula. No que estavam certos, acho. Aliás, estavam bem amparados na preleção de Agostinho, grande sabedor das coisas terrenas: “Todas as vezes que alguém toma, no comer e no beber, mais do que necessário, saiba que isso ficará entre os pequenos pecados”. Ora, pois, ninguém vai perder sua alma por conta de pequenos pecados. Então, “m’ninos, aos doces!” Pois é. Se querem, posso-lhes fornecer a receita dessa iguaria admirável.
Andei pensando. Ao tempo do Êxodo, os hebreus desconheciam-na, segundo o Velho Testamento. Mas formulo a seguinte tese: se o povo de Moisés comesse lampreia de ovos, é absolutamente certo que nas suas oblações grelhadas em honra a Yahweh, entregariam às brasas do propiciatório sagrado, além das carnes regimentais, uma bela lampreia votiva, à sobremesa divina. Feita, à maneira kosher, esse doce “desprenderia odores suavíssimos ao Senhor”, acho.

É onde eu te falo...


quarta-feira, 25 de julho de 2012

O croupier, o tico-tico e a Torah


                     Nos manuais de Teoria Geral do Estado se aprendia um truísmo-chavão: “Nação é o Estado politicamente organizado”! E tome estado-isso, estado-aquilo, uma lista enorme, tão ao gosto dos teóricos antigos. Acrescentei a esse rol duas modalidades: o estado croupier e o estado tico-tico. Croupier é o sujeito que, nos cassinos, dirige a banca e recolhe as apostas; e o tico-tico é aquele passarinho praticamente extinto. O Brasil é representante universal dessas duas modalidades.
O Estado Brasileiro banca dezenas de jogos de azar, no que arrecada uma fábula para financiar malandros públicos e privados; são os concursos loto-isso, loto-aquilo, em cuja lisura muitos não confiam. É o estado croupier. Por outro lado, consta que o godero (ou chupim), passarinho malandro, invade o ninho do tico-tico e lhe destrói os ovos para nele botar os seus próprios, os quais são chocados pelo dono do ninho. Bem ao feitio brasileiro. Gente que não tem onde cair morta procria enfezadamente, deixando ao Estado o encargo de manter suas crias. É o estado tico-tico, que a pretexto de distribuir renda, financia a irresponsabilidade sexual dos goderos.
Esse negócio chamado Estado é um caso sério. Tão sério quanto os teóricos publicistas que arrolam, entre as modalidades estatais, o chamado estado teocrático. O croupier e o tico-tico são modalidades daninhas, cujas desgraças potenciais se vão acumulando para explodir a longo prazo; mas o teocrático, esse é uma bomba-relógio, que pode estourar a qualquer momento. O estado teocrático é também regido por leis, mas leis religiosas, não seculares ou profanas. A teocracia tem um dono, bambambã especial que tem contato direto com uma divindade, da qual ele é intérprete e confidente. Assim, pode decretar o que lhe der na cabeça, alegando que são ordens da tal divindade. Um trem doido!
Israel, além das suas crises externas, lida com um sarilho doméstico que pode azedar mais suas aguadas démarches diplomáticas pela paz: o Partido Kadima, ninho de judeus ultraortodoxos, rompeu com o Governo Netanyahu. Motivo: o Parlamento hebraico discute o projeto que acaba com a regalia dos fanáticos religiosos quanto à prestação do serviço militar. Judeus ultraortodoxos são isentos do serviço militar, que em Israel dura dois ou três anos, privilégio que o Estado quer extinguir – não só por pressão da própria comunidade israelita, mas também pela situação nacional relativamente aos seus vizinhos ismaelitas.    
Israel e Ismael brigam há milênios. Sarah, mulher de Abrahão, tinha o ventre seco; Abrahão, galo reprodutor, emprenhara Agar, donde o nascimento do pequeno Ismael; tudo ia bem até que Sarah, por ordem divina, concebeu Isaac; imediatamente Abrahão repudiou a amante Agar e o pimpolho Ismael, expulsando-os da tribo. A partir daí começaram as escaramuças.
Tirante qualquer juízo sobre às políticas israelenses, uma coisa é certa: Israel vive em permanente estado de guerra. Certo ou errado, Israel está em guerra e nessa contingência precisa, como qualquer nação em guerra, das suas forças armadas. Então é estranho e inadmissível, que uma determinada casta israelense cruze os braços e se escuse de pegar o fuzil. Afinal, como no adágio, guerra é guerra...
Bom, cada um se entende a seu modo – dizia André Cavaleiro na Ilustre Casa de Ramires, pela pena do iluminado Eça. Mas por que os ultraortodoxos não querem vestir a farda e portar os petrechos de guerra? A resposta é simples, dada pelos líderes ainda mais ultraortodoxos que o seu estático rebanho: “Os nossos jovens religiosos servem à nação por meio de estudos e orações” !!!                
Pois é. Reza e leitura da Torah “fecham o corpo”: se guerreiro palestino (por exemplo) aponta a metralhadora contra um desses jovens estudiosos/rezadores; bastará que este se esconda atrás do rolo da Torah e grite: “No dia da adversidade me esconderei no pavilhão do Senhor!” Pronto. Está a salvo das balas!
Fico a imaginar o destino de Israel governado pelo Kadima. Mazel Tov, Kadima!

É onde eu te falo...

           


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Ouvir o galo cantar sem saber onde

            Grandes jornalistas fizeram e fazem a glória da Imprensa nacional. Não é preciso citá-los nominalmente, porque a comunidade de leitores assíduos os conhece de sobra. Mas tem cada um que... faça-me o favor.
            No Estado de Minas de 22/5/12, pág. 12, um repórter conta que a Polícia abateu “três suspeitos em tentativa de assalto a um posto de combustíveis no Bairro do Cambuci” (sic). O leitor racional atina logo: três indivíduos que pareciam estar tramando o assalto foram mortos pela Polícia. Sim, porque eram apenas suspeitos de tentar o assalto.
            No entanto, mais adiante, diz a nota que “armados, os criminosos renderam dois clientes e dois funcionários e começaram a recolher o dinheiro dos caixas e das vítimas” (sic, de novo). Justamente nesse momento a ronda policial “flagrou a ação e os ladrões tentaram fugir” (sic, outra vez); a coisa desandou em tiroteio, no qual os tais “suspeitos” morreram. É muito!
Ou, como dizia Véi Osório, é munto!
Véi Osório, conheci-o em criança, era mateiro antigo, sabedor de folhas e raízes, que detinha os segredos de garrafadas infalíveis para males de qualquer etiologia, de caspa a desorientação puerperal; sem contar seus extraordinários dotes de caçador e a genialidade para assar uma leitoa.   Quando lhe diziam alguma coisa absurda, ou desencontrada, ele manifestava a sua descrença com uma simples expressão: - É munto! Então perguntavam: - Munto o quê, Véi? Ele respondia, na bucha: - Munto difice di aceitá...
Mas deixemos Véi Osório de lado e voltemos à nota em questão. Positiva e decididamente,
muitos jornalistas não conseguem entender o significado de “suspeito”. Melhor ir ao Aurélio: “suspeito - que infunde suspeitas; duvidoso... que inspira desconfiança”.
            Pois é. Os três “criminosos” (agentes de um crime) rendem clientes e funcionários a poder de armas, e recolhem o dinheiro dos caixas quando são surpreendidos pela Polícia com quem trocam tiros. E ainda são... suspeitos (!) - segundo o autor da nota! Mas, os policiais os surpreenderam durante a própria execução do crime; ou melhor, os “criminosos” estavam praticando o delito. E ainda são apenas meros suspeitos... Tem dó, né?
            No entender do jornalista, portanto, os indivíduos que ele qualifica como “criminosos” e “ladrões”, estavam só idealizando ou preparando o roubo que iriam cometer! Suspeitos... Dá pra agüentar? Tá bom, tá bom. Jornalista não precisa de diploma em Direito. Mas precisa, no mínimo, de procurar saber do que está falando, seja perguntando a quem sabe, seja consultando um simples dicionário. A definição legal de “suspeito” é a mesma definição léxica; não é preciso diploma de bacharel ou doutor em Direito para entender que alguém só é suspeito de um crime enquanto não houver prova objetiva da sua culpabilidade, ou, no mínimo, fortíssima prova indiciária de autoria. No caso dos três indivíduos citados pelo repórter, a prova do crime e da autoria estava feita: os bandidos haviam rendido pessoas com armas e estavam recolhendo o dinheiro. Isso será tão difícil de entender? 
            O repórter entende que se o agente não consegue consumar o crime (como no caso) ele é apenas... suspeito, mesmo que flagrado em plena execução do crime. Então, por que os qualifica como criminosos e ladrões? Já passou da hora de diretores, editores, revisores, copidesques, quem seja, montar um cursinho de “Tinturas de Direito” (ou que nome queiram), nada profundo, para o seu pessoal que se mete a escrever sobre o que não sabe. Ou o leitor é antes de tudo um idiota e pra idiota qualquer besteira serve? Talvez seja isso. De todo modo, para as barbaridades e impropriedades que às vezes saem no jornais só se pode dizer: - É munto!
             É onde eu te falo...