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terça-feira, 26 de julho de 2011

FULÔ QUE NÃO TEM CHEIRO


Luiz Vieira, poeta de nordestinos cantares, é um cantador justo e perfeito. Bem que ele cansou de avisar, nos versos de “Na Asa do Vento: “o amor é bandoleiro, pode inté custá dinheiro, é fulô que não tem cheiro e todo mundo quer cheirar” - versos da canção que compôs com João do Vale.

A advertência do poeta foi passada e vem repisada, há anos, pelas ondas de Hertz; mas, acho, inutilmente. Apesar do aviso, ninguém deixou, nem deixa, de buscar pelo aroma da flor-sem-cheiro. É da natureza humana. É como na fábula antiga: o escorpião, querendo atravessar o rio, pede ao sapo que o leve nas costas até a outra margem. O sapo concorda. No meio do rio, o escorpião mete o ferrão no sapo, que pergunta: - E agora? Você não vê que nós dois vamos morrer? - Então o escorpião responde: - Não posso fazer nada; é a minha natureza...  

Pois é. Há coisas que não mudam, justamente por serem inevitáveis. Essas coisas, existem-nas também no mundo do vinho - aliás, solo muito propício ao cultivo de plantas inúteis que juntam o improvável à inutilidade. Alguém dirá: mas plantas assim são perfeitamente evitáveis, bastando que não se cultivem-nas. Uma afirmação lógica; que não consegue emplacar. Dou um exemplo, recorrente e significativo.

Sala cheia; convidados alegres brincam com as taças ainda vazias; mesas festivas, onde se consomem fatias de pão e azeite; jarra d’água à frente; alma em ponto de bala. Papilas gustativas e  narizes aguardam; olhos encantados não despregam da ribalta onde se perfilam os astros da noite, os vinhos escolhidos para prova e avaliação.

Serviço iniciado, gestos esotéricos, caras dramáticas, narinas se afogando no bojo dos cristais onde o vinho rodopia nos volteios de mãos habilidosas, bocas fazendo bico e até mastigações nem sempre virtuais, embora indevidas. Simbolismo ritualístico? Não. Suas excelências, os provadores de notória habilitação enológica, estão avaliando as propriedades organolépticas, físicas e químicas dos vinhos. Vinicultores e representantes de vinícolas torcem as mãos e se espremem nos próprios braços, inquietos, cheios de ânsia, porque Suas Excelências se mantêm impassíveis, sem dar o menor sinal das suas elevadas impressões. Mas a encenação não pode durar para sempre. Pronto! É hora de pronunciar o resultado de tão profundo exame.

Então, tcham-tcham-tcham-tcham! Voilá!  O hierofante provador se levanta; aguarda o silêncio geral; limpa a garganta; repuxa os punhos e arruma a gravata. Suspense. E ele proclama, na forma mais empostada que sua alta sabedoria exige: o vinho apresenta taninos elegantes!!!

- Ohhh! Que profundidade! Que raro descortino! Que facúndia! Jambo, Bwana! (*)

Bwana se senta, fingindo modéstia, mas dos seus olhos esguicham jatos de autoelogio. Está feliz e acha que merece passagens da Viking Airlines para Estocolmo, onde recolherá o Nobel de Literatura Enológica. Só não consegue traduzir com exatidão o que seriam “taninos elegantes”, já que o conceito de elegância nasce e vive no reino do subjetivismo. No fundo, Bwana sabe que o vinho pode conter taninos acanhados, taninos na proporção ideal ou taninos excessivos. Mas nunca dará a sua opinião em termos assim tão simples, porque ele, afinal, é um entendido de vasta fama e provador de largas travessias; um connaisseur, enfim.

Alguns convidados anotam a frase de Bwana para usá-la noutras oportunidades. E assim se cunha um dito que a comunidade enófila adotará para sempre: taninos elegantes entrará na linguagem coloquial e na pretensamente erudita, até que o Aurélio a consagre, por força do uso sistemático. No entanto, nem mesmo o prestigioso Dicionário poderá explicar, lexicamente (e gustativamente) o que são “taninos elegantes”.

Fazer o quê?  Esnobismo é fulô que não tem cheiro, mas todo mundo quer cheirar... É da natureza humana, né?  

É onde eu te falo...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Vinho Verde, uma das glórias de Portugal

            Alguns dos vinhos verdes degustados


- Seja uma reta! - dizia o professor de Matemática, que traçava no quadro negro uma reta entre os pontos hipotéticos a e b. Aí o verbo “seja” não era dito na voz imperativa (ordem), mas no subjuntivo (proposição). A frase, pois, não era ordem ou conselho para que o aluno se transformasse numa reta, mas para que ele considerasse uma reta imaginária, relativamente à qual era proposto um problema – p. ex., traçar sobre ela uma linha perpendicular. Hoje os professores adotam métodos diferentes e um palavreado mais terra-terra, menos  acadêmico; até porque a moçada atual (que escreve “naum” em lugar de “não”) ficaria por entender.
            Ciente de que os meus leitores são gente de muita leitura, proponho-lhes: - Seja um bacalhau à Gomes de Sá!   
Essa iguaria celeste está no Restaurante do Porto; e você lá. Como o programa diz que lhe servirão vinhos verdes, você já está com a boca cheia d’água e a alma em festa. De repente ouve a voz carregada de Antonino Barbosa, português de longo curso e rápidos falares, que lhe apresenta as suas estrelas da noite: dois Muralhas de Monção, um Adega de Monção e um Rosé Deu La Deu. Todos em Belo Horizonte representados por Carlos Pereira, da Barrinhas (31)3287.0580.  
O branco Adega de Monção DOC, leve como deve ser um verdinho branco para o verão, tem certa presença gasosa, notada no colar de bolhas que brincam na orla. Combinação muito agradável de Alvarinho e Trajadura, meio a meio. Ótimo para abrir uma boa vinhaça noite a fora, quem sabe? Segue o, também branco, Muralhas de Monção DOC, das mesmas uvas. Superior ao antecedente, um vinho que surpreende. 85% Alvarinho e 15% Trajadura, é fresco de acidez convincente, traz marcantes notas cítricas e de frutas secas. Nessa altura você já decidiu que a noite será de “vinhaça forte”, como diria de Eça, veemente arauto dos verdes portugueses.
O terceiro vinho, Rosé Muralhas, é mais simples. Combina Alvarelhão, Pedral e Vinhão, à terça. É ligeiro na boca e um tanto vago ao nariz, mas encanta os olhos pela cor de salmão (das águas européias, não do litoral chileno), como se fora um palhete esbatido. De toda forma, lava a boca para chegada do mais esperado da noite: o tinto Adega de Monção. Com predomínio das uvas Brancelho, Pedral e Negrão, já recebeu o prêmio Mega Degustação Gula 2007. Tem ótimo equilíbrio entre a digital alcoólica e a acidez natural das uvas. É um vinho sério; bem imponente; encorpado, porém macio. Caiu lindamente – também como diria o Eça – com o bacalhau.
Pois é. O vinho verde, uma das glórias de Portugal, sempre traz satisfação e bem estar. Quem o diz, com a propriedade do conhecedor e aliado fiel, é ninguém menos que o magnífico escritor da Povoa do Varzim. Raro é o livro dele sem referência aos verdinhos lusitanos. Então, se a grana anda curta para atravessar o Atlântico, eis uma boa variante: ponha à mesa lascas grossas de bacalhau a nadar no azeite, leia (ou releia) A Ilustre Casa de Ramires e, para cada página que virar, beba um gole de vinho verde. Pronto! Você já está em Portugal.
É onde eu te falo...        
Antonino Barbosa - Presidente da Adega de Monção

sexta-feira, 8 de julho de 2011

BAILINHO APIMENTADO


Servi na Legião Estrangeira como corneteiro do forte Trésor de Sable, comandado pelo Capitão Valéry Giscard d’Estaing. Como, além do comandante, a guarnição se resumisse a mim (o resto  morrera de amargura e disenteria) cabia-me também o posto de vigia na torre sul do forte.

Quando o sheik Farraj Al-Mouffa’ada, notório combatente do colonialismo francês, sitiou  Trésor de Sable com mil beduínos ferozes, o capitão se evadiu disfarçado em encantador de serpentes e foi assumir o governo da França. O forte virou escombros; ficou de pé somente a torre do lado sul, onde Al-Mouffa’ada dependurou a sua bandeira azul celeste, na qual reinava um camelo escarlate com um sabre ismaelita entre os dentes. Quanto a mim, desertei, no rastro de providencial tempestade de areia; coberto de graxa marrom para calçados e alguns trapos sujos; escapuli passando por vendedor de água.

Tirante as durezas do clima, foi um tempo de grande proveito. Aprendi muito sobre a cultura local, inclusive da culinária. Aliás, tenho ainda um tagine de cerâmica vidrada que me deu o Capitão Giscard como parte nos despojos de um oásis que a Legião arrasara. Nesse tagine cozinham-se sobre brasas belos pedaços de carneiro e legumes, prato excelente para se comer com cuscus e chá de hortelã - lá, em terras de Allah, porque aqui bebo vinho mesmo.    

Mais aprendi no meu tempo de legionário: o capitão era um sujeito de vasta cultura; e, dado a insônias recorrentes, passava noites inteiras na minha torre. Nessas ocasiões ele levava duas ou três garrafas de pinot noir, que bebia sozinho, já que um sentinela não bebe. Ali conversávamos até o toque de alvorada, depois do que eu ia dormir e ele subia para o seu cavalo árabe, o fogoso Sheitan, e galopava até o sol ficar intolerável. A propósito, Sheitan, em língua de beduíno, é o próprio Capeta, razão pela qual os do deserto a ele se referem como “o maligno”.

Mas o capitão, eu dizia, era um homem sábio (Allah, porém, é mais sábio!). Giscard estudava coisas e ciências, entendia de arte; além de perfumista, antropólogo, grande cozinheiro e perigoso espadachim, era druida honorário, donde sua intimidade com os saberes secretos. Foi ele, M’sieur le Capitain, que me instruiu sobre a origem da esbórnia festiva  que o mundo conhece por “ménage à trois” - um festival de alcova, triangular, no qual tomam parte um homem e duas mulheres, na modalidade original; consta outra forma, com dois homens e uma mulher, mas essa não é regimental.

Pois eu achava que a ménage à trois era uma invenção francesa. Corrigiu-me o capitão:

- Oh, mais non! Absolument!  - e confirmou que esse divertissement sexuel é uma invenção hebraica!

- Como hebraica? Não me consta que...

- Oui! C’est une invention hebraïque, mon cher… - e contou a história: Loth juntou a mulher e as duas filhas, com quem abandonou as terras pecaminosas do Mar Morto. A mulher de Loth (tentada pelo Sheitan hebreu) queria porque queria participar dos bailinhos apimentados de Sodoma e Gomorra. Horrorizado, Loth decidiu levar família pra longe daqueles ermos de perdição. Aliás, foi nas beiras do Mar Morto que a mulher de Loth desistiu da viagem e do marido: decidiu se transformar em estátua de sal, destino, segundo ela, melhor do que acompanhar o velho ortodoxo com quem se casara. Viúvo, Loth seguiu estrada. Lá um dia, no desconsolo da solidão, emborcou um odre de vinho estragado e enfoguetou: levou para a cama as duas filhas; ao mesmo tempo! Curiosamente, na mesma noite emprenhou-as; ambas...

Quando eu falei na implausibilidade dessa dupla fecundação sincronizada, o capitão me advertiu que Loth recebera ordem superior para acochar as filhas naquela noite fértil, porque era preciso que nascessem Amon e Moab, que dariam origem a amonitas e moabitas, povos bravios que fariam frente aos hebreus de Móisés na corrida para Canaã.

- Então foi isso! Uma história deveras...

- Extraordinaire! - completou o capitão, chupando o último pinot noir no gargalo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

D. Dilma e os desconformes lingüísticos

Dona Dilma preside. No descostume de ver a República governada por mulher, o povo embasbacou num impasse nominativo: como se referir a ela, presidente ou presidenta? Santo Deus, que dilema!
Dividiram-se as preferências; nas ruas, na imprensa, em lares e bares: Presidente Dilma e Presidenta Dilma. Até gramáticos referendaram a forma “presidenta”, condenada por muitos deles; o douto Aurélio informa que presidenta pode ser aquela que preside como pode ser a... mulher do presidente. Cruz credo! Eu nem sabia que D. Marisa Lula da Silva era presidenta do Brasil!
Querem saber? Por mim D. Dilma pode ser o que quiser; ou melhor, podem-na chamar como quiserem. Só acho que citá-la em razão do cargo no gênero feminino pode criar impasses e desconformes lingüísticos.
Mas, D. Dilma é residenta em Brasília? É descendenta de europeus? Quando acuada pela base aliada fica impacienta, ou é uma ouvinta toleranta? Não sei. Só sei que dói no ouvido dizê-la votanta naquela Seção Eleitoral, é ouvinta atenciosa, fica eleganta num tailleur bem cortado e é contribuinta do Fisco Da União. Ah, segundo a Coinstituição Federsal, ela é a comandanta suprema das Forças Armadas.
Pobre D. Dilma...         

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Um Gamay a bordo do Exocet, com direito a “Paêja”


Impressiona a coragem de certos jornalistas que não têm  receio algum de escrever e falar incorretamente em língua estrangeira e às vezes na própria.

Os exemplos são muitos. Por exemplo: habitat, que em latim se pronuncia “ábtat”, virou “abitá”, porque a mídia falada assim decidiu. Como na imprensa escrita se decidiu que restaurateur, é “restauranter”, o somellier se chama “samelier”, a uva chardonnay (“chardoné”) foi rebatizada como “chardonê! Um vinho “chardonê” deve ser horroroso. A uva gamay (gamé) é “gamêi”. Dá para gamar num vinho com esse nome?     

E a tal “paêja”? Tá certo, os argentinos, por exemplo, pronunciam o dígrafo “ll” como o nosso som de “j” e então a paella, para eles, pode ser paêja. Que seja. Mas um corrente de enófilos brasileiros pronuncia “paêja” e bebem “amontilha’o”, nunca “amontijado”, com “j”... Não é de rachar? 

No começo da guerra do Iraque, entrou em cena um foguete francês chamado exocet (“ekzocê”); pois um locutor da televisão, muito arrumadinho e cheio de tiques, lascou no Jornal do horário nobre um “eks-ôu-cet” mais daninho que o próprio foguete gaulês. O vexame foi tamanho que o locutor saiu do vídeo; nunca mais o vi. Outro lançou via Hertz que o Exército alemão, a Wermacht (vermascht) atendia por “u-er-métx”.

E por aí vai. Numa situação de emergência legal pode-se requerer (pedir) em juízo uma “decisão liminar”. Pois muitas vezes se ouve no rádio que o Dr. Fulano “entrou com uma liminar”. Uma ova!  Só um advogado doido “entra com uma liminar”; os normais “entram com um requerimento de ordem liminar”.

Nos desvairados escândalos nacionais, um meliante é pego em flagrante com a mão na botija. Se o Promotor o denuncia e lhe move a ação penal, a informação dos jornais é a seguinte: “Fulano é denunciado pelo Ministério Público pelo suposto crime de roubar dinheiro público.” Outra ova! O malandro foi preso em flagrante delito! Só um Promotor aloprado oferece denúncia por achar que o Fulano roubou; denuncia-o porque tem base objetiva para acusar o Fulano de roubo, já que “supor” significa “achar, ter um palpite”. E se um Promotor alucinado denunciar o Fulano dizendo ao Juiz que “tem um palpite de que o Fulano roubou”, o Juiz, se não for outro maluco, vai mandá-lo estudar mais.

Ora, conhecer línguas estrangeiras e Direito não é dever de qualquer jornalista. Mas é obrigação dele procurar se informar antes de falar e escrever besteira. Se não o faz e joga no mundo um monte de bobagens, é um jornalista nanico e um enorme arrogante: acha que já sabe tudo e não precisa de se informar antes de... informar.

Mas tudo isso é tolerável com uma boa dose de humor. O que esculhamba é um ministro  que se diz da Educação (?) apregoar aos quatro ventos que falar e escrever  “nóis fais café” está ótimo, porque isso ajuda na socialização (!) da Língua Portuguesa. Esse não é só arrogante; é doente.  

É onde eu te falo...

COISAS GRAMÁTICO-MINISTERIAIS


Contaram-me que o Ministério da Educação tem quase pronta a mensagem de alto interesse público, que encaminhará ao Governo, visando à mudança radical das estruturas da educação nacional. Consta que o próprio Ministro vem, há coisa de cinco meses, apesar do esforço descomunal de tarefa tão árdua, soletrando com dificuldade cada palavra do texto que compõe. É que Sua Excelência, também assim me disseram, encontra dificuldades no terreno – para ele hostil – dessas coisas miúdas de sintaxe,  regência, prosódia, ortoépia e quejandos. De fonte que não revelo recebi uma cópia desse monumento lítero-educacional, do qual ora transcrevo alguns trechos do cabeçalho, do meio e do período final.

“Esseleitisma Prizedeta d repubriqa. Falá brazilero ingual a gramatriqa ezeje ficô muto difissi pro povo brazilero e eu pemcei a#### acim qa siora pudia ajudá o pouvo brazilero isqrevê  ingaul a jenti fala. Nois já num góstia distudá e fica pilhor ci a gente tivé qui meche quessas gramatriqa  boba qui so perde tenpo e num decha o pouvbrazilero pogrede pogredi e vai cu povuo brazlero fica falano dum jeto isqreveno diotro...”  

“... i despença os pr pofesso de purtuges qui nois ca e tudo brazlero e nem num pricisa nendevi fica cupiano as koiza dos putuges quêis num fala ingual nois e seno anssim caba tomen queça bobagi dinsiná us minin#### mininim iscrvê cum gamatriqa e cus verbo anssin e açado os ##### assemto toniquo e us gralve mais eça qoiza de cintache ca gente numqaprendi e intam eu axo ca siora tein decabá cuisso...”

“porveito inseg#### inçejo pra re-cunmenda i cortano os çalaro dos pré#### fessô de purtuges desdijá qé preles dizenteressa da carrera deis e isting#### eisting##### (qui raio!) cabá duma véis cueles tudo dechano nois tomá tomen conta do indioma naçeonau...”

Como podem ver pelas amostras, o texto é de elevado conteúdo social, sem contar a pureza do estilo, que encanta.

É onde eu te falo...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

SOPA, SOPEIRAS, CASTELOS. PÃO, VINHO E AMOR

            Paixão por vinho, por comida e por Eça de Queirós – eis um trinômio recorrente nos meus textos, porque minha mente é deles hospedeira que não cobra diária. Para rematar, minha esposa Andréa Pio (outra paixão que meus pensamentos hospedam de graça) também é apaixonada dessa tríade maravilhosa, de sorte que sempre estamos enredados, nós cinco. Recentemente lembramos: onde está o Eça, está o vinho e está a comida, donde ser natural que esses três se acompanhem “lindamente”, para usar uma expressão ao gosto do iluminado escritor.   
Em “A Ilustre Casa de Ramires” pode-se sentir o gosto e os aromas das comidinhas e dos vinhos que frequentam as mesas de Gonçalo Ramires, de José Barrolo e da tasca do Gago. Ali reinam gloriosamente o Alvarinho e o Alvarelhão, as “pratadas de ovos com chouriço”, o “frango com ervilhas”, a “salada de pepinos”, a “solha com ervas”, a “tainha assada”, o “cabrito assado em espeto de cerejeira”; sem contar os indefectíveis “ladrilhos de marmelada”, os “bolos de bacalhau” e os “pastéis de nata” da confeitaria das Matildes”, para o que sempre há um vinho adequado. Quando ele fala nos vinhos de Amarante, podemos senti-los na boca, opá! Ai, Jesus, que vontade de sorver os vinhos ecianos, brancos e tintos, verdes, verdinhos, cheios de agulha, que hoje não se acham mais...  Em certa manhã, ao “almocinho”, o Fidalgo da Torre alude às “sopas da família”, com muitos legumes, lascas de presunto e ramos de hortelã ao fundo da malga. Santo Deus, que fome dá ler aquilo!
            Pois é. As sopas... Que alimento maravilhoso! Nutritivas, fumegantes, coloridas, de fácil digestão e aparência festiva, as sopas, sobre contentar o estômago, têm o dom de confortar o espírito. E, a bem dizer, somos, primordialmente, estômago e espírito. O espírito é um “trem” delicado, que tem a mania de se abater nos desaires da vida, notadamente por uma debilidade orgânica ou pela falta de cafunés e aconchegos. Ofereçam uma bela, sopa, cheirosa e atraente, ao indivíduo gripado, ao decepcionado no amor, ao do estômago avariado, ao deprimido. Não dá outra! O sujeito melhora logo. Às vezes sara! A experiência mostra e a sabedoria ancestral o confirma. Basta experimentar.
            Nada obstante, a sopa guarda o estigma de um preconceito absurdo: é tida como “comida de pobre”, ou “comida de doente”, e, portanto, no juízo dos desavisados, não merece consideração e aplauso. Essa opinião me dilacera, quando a ouço. Claro, não estou falando de quem tem horror fisiológico à sopa, lá por suas idiossincrasias. Aí o caso é outro, como o das pessoas, por exemplo, que não suportam jiló, dobradinha, fígado, frutos do mar. Existem-nas. Existe mesmo quem deteste vinho... 
Acho proveitoso um conselho aos birrentos preconceituosos. Primeiro, visitem os museus, onde vão encontrar magníficos serviços de mesa de reis, imperadores e potentados de todas as épocas; ali estarão riquíssimas sopeiras em porcelana rara, decoradas com flores e ramos dourados que circundam as armas da sua dinastia. São peças de nobre estirpe, saídas das louçarias de Sevres, de Limoges e similares, algumas bem mais antigas. Não são sopeiras, mas obras de arte. Nem é preciso ir à Europa; basta visitar o Museu de Petrópolis ou o Museu da Quinta da Boa Vista, e admirar as sopeiras que serviram aos Braganças que reinaram no Brasil. Ali se podem ver as maravilhosas sopeiras que serviram às Suas Majestades. Aliás, D. Pedro de Alcântara não fechava o dia sem uma boa canja, dizem os historiadores. Ah, e com raminhos de salsa...
Depois, os birrentos devem (sem deixar de ler os textos) folhear publicações especializadas, que tratam justamente das mesas de alto nível. Nelas vi uma sopeira cuja tampa ostenta, à guisa de pegador, a escultura de uma ninfa, cinzelada em ouro por ninguém menos que o ourives da Renascença, Benevenuto Cellini, o Inigualável; salvo engano meu, ao serviço de Cosimo I de Medicci, Duque de Florença e Grão Duque da Toscana. Vi outra, absolutamente preciosa, do serviço de Carlos I da Espanha (Carlos V do Sacro Império Romano), que acumulou reinos e ducados como ninguém. Ouvi contar que Disraeli, Duque de Beaconsfield, ministro e gênio financeiro da Rainha Vitória, se perdia por uma sopa de ervilhas. Como são inconsistentes as colocações dos que desprezam as sopas! Ao contrário do eles pensam, nelas não há pobreza, mas riqueza, nobreza e poder, já que reis, imperadores, ministros, papas, dodges e dignitários apreciavam-nas, e muito.   
Pois é. Como Belo Horizonte anda muito frio, enriqueci alma, coração e espírito com... sopa e vinho! E pão, claro. Com os vagares e o élan devidos, preparei o caldo: garrão bovino, pimenta branca, cebola, aipo, alho poró e sálvia; água, fogo brando e tempo; então, era coá-lo e nele cozer “al dente” as massinhas e os legumes, cada qual no seu tempo próprio. O pão ali; cheiroso, dourado, estralando o craquelê da casca. Só faltava Sua Majestade. Não da Casa de Bragança, de Habsburgo ou Medicci, claro; mas havia outro conviva, igualmente real: Sua Alteza,  o Vinho!
A sopeira reinava sobre a mesa; simples, branca, mas nobre e cheia de glamour. Servi um Crasto Superior: nele, duas tourigas, a Nacional e a Franca, mais Tinta Roriz, Souzão e Vinha Velha. Time de respeito, sô! Encanta na cor, seduz no gosto; só harmonia e equilíbrio. Então, evangelicamente, parti o pão. Depois, na malga, fiz uma cama de galhos frescos de orégano e hortelã, acomodei a sopa e.... me senti o rei de Portugal. Eu era o próprio Dom Manoel! No que não estava enganado: Andréa segurou minha mão e proclamou: “Você é o rei da minha vida!”. Uau! Sou isso tudo?
Bem, a sobremesa foi um grande beijo de amor...

O ÉDEN, ADÃO, EVA E O COLIFORME FECAL

Se eu fora um Deus-Criador-Todo-Poderoso, teria, no Sexto dia, povoado o Planeta com seres sem necessidade de comer para viver. Como? - perguntam. Não sei! - respondo. E não sei por me faltarem a capacidade criadora e o dom da onipotência. Entretanto, para quem é dotado desses prodígios, a solução teria sido tão fácil quanto é, para mim, beber um  Don Perignon e mastigar um pote de Beluga - com torradinhas brandas, é claro.
Mas, não. Preferiu-se criar esses seres rudimentares - como tais cheios de necessidades - que atendem por Seres Humanos. A princípio imaginei que o Criador, nos seus altos os, decidiu que para ser “humana” a criação do Sexto Dia deveria lutar para não morrer, caçando, matando e comendo. Depois atinei que essa hipótese batia de frente com o dogma do Éden, onde o primeiro casal não precisava desses esforços; a menos que Adão e Eva tivessem sido planejados para prescindir desses esforços, e foram modificados para se submeterem a eles após da transgressão da macieira. Por essa alternativa, que considero muito plausível, o Criador teria chamado os comedores da maçã proibida para um recall, impondo-lhes - além do suor de cada dia, das dores do parto e demais penitências - a nada graciosa atividade da evacuação intestinal.
Tudo isso são prognósticos. O que é verdadeiramente indiscutível - e, ao que parece, definitivo - é o postulado fisiológico que enuncia: comeu, cagou. É elementar: para estar vivo é preciso comer; se comer, precisa evacuar – o que determina a inexorabilidade desse moto-contínuo. Ora, nesse constante comer/cagar era fatal que o mundo se afogasse em merda, rejeito intestinal, ao lado da também contínua produção de merdas não orgânicas, como pedofilia, roubo de dinheiro público, venda e consumo de drogas, etc. É verdade que essas mazelas não são derivadas da atividade excretora, mas o que se esperaria de seres tão mal arrumados senão um desfiar constante de vilipêndios e malfeitos?
Então, é lícito supor que o Criador, desiludido com o casal inicial, reesculpiu esses protótipos, dotando-os de uma qualidade que originariamente não tinham, qual seja, a de portadores da permanente necessidade de cagar no mundo. E a produção de massa fecal é, obviamente, tão grande que faz crer que o Criador impôs à sua Criação o dom, ou o castigo, de pisar e se envenenar com a própria m... quero dizer, com a própria excreção.
Portanto, não se queixem da podriqueira que grassa nas casas-de-pasto-a-quilo, onde, a julgar pelas revelações da Imprensa, os alimentos são deliciosamente temperados, além dos condimentos normais, com vastas pitadas de coliforme fecal. E estejam certos de que esse desastre alimentício vai acompanhar a Humanidade até o fim dos tempos.
Nem adianta o paliativo de lavar as mãos e esfregá-las com álcool gelificado; roupas e objetos sempre estarão impregnados desse indesejável coliforme. Ou seja, até o Dia do Juízo, quando o Planeta estará livre da raça humana, os homens estão destinados a comer a merda-nossa-de-cada-dia. Daí resulta um outro postulado, tão inflexível quanto o de Euclides: fazer merda e comê-la, não é apenas da contingência humana no atual estágio evolutivo, mas uma imposição divina.  
                Fazer o quê?   
                
               É onde eu te falo......

VINHOS, PEDRAS E PASSARINHOS

                Disseram-me que Véia Figena, mulher de belo semblante, pouco riso e vasta comunicação com as deidades da sua teogonia tribal, é pessoa de falas definitivas. De estirpe real, descende de sobas e guarda o ar senhoril com que os seus ancestrais entraram no negreiro maldito que os trouxe ao Brasil. Véia Figena fala o Nagô, que aprendeu com a mãe, que aprendeu com a dela, que aprendeu com a dela... e assim pra trás. Por isso, quando em sintonia com Orixás, Exus e outros seres etéreos, conversa na língua deles.
                Pois desvendamento do passado e antevisão do futuro para a Véia Figena é coisa trivial. Ela é preciosa nesses misteres; sem contar os aconselhamentos que dá, muito eficazes para desmanchar esparrelas e espantar desaires. Com tais predicamentos, suponho, a velha yawô há de ter algum despacho ou mandinga para neutralizar a praga que jogaram em mim. Ah, sim, porque só pode ser praga: eu, (imaginem!) costumado bebedor de vinho, estou para aposentar a minha taça!
                Não, não é conselho médico; nem receio de estar desbordando dos limites aceitáveis. Também não é por cisma ou promessa jurada em momento de apertura, mas por concluir que o vinho é um trem doido! E, é de mineiro preceito, com esses trens não se brinca.
                A questão é que o vinho ficou exigente demais. Aliás, ficou malvado. Mais que isso, se tornou perverso. Pior, virou um ditador desvairado que me quer sujeitar aos seus desvarios. Pois não é que ele, ingrato e sem a mais mínima consideração com um aliado fiel, resolveu me impor severa mudança de dieta, para saboreá-lo a contento? Que demasia!
                E não pensem que seria apenas uma alteração de costume alimentar, como deixar de ser onívoro para só comer folhas; nem de cortar o torresmo com mandioca ou abandonar os frutos do mar. Não! É coisa muito mais radical. Eu precisaria de comer - pasmem! - precisaria de comer... pedra! Isso mesmo, pedra, “matéria mineral dura e sólida, da natureza das rochas”, conforme o Aurélio!             
                É verdade que o tirano não exige que eu mastigue pedaços de pedra; basta que eu os coma pulverizados! Mas, ô diabo! Não tenho equipamento de triturar pedra, nem mesmo um moedor eficiente para reduzir a pó a uma canjiquinha de granito, gnaisse, o que seja. Depois, como engolir isso? Muito pior, que desastre intestinal essa farofa não me causaria, da deglutição até a... délivrance? Pois é: um Grande Bwana do Vinho, lascou na Internet que determinado e maravilhoso vinho tem sabor de... pó de pedra moída !!!
Cruz credo! Esse trem, fora o insólito, tem outro realce: o de supor que o tal connaisseur inclui essa farinha pétrea na sua estranha dieta. É universal a lenda infantil da “sopa de pedra”, convenhamos. Mas temperar alfaces, porco e suflês com pedra moída, só fica bem nas ilimitadas possibilidades do “realismo fantástico! Fez sucesso na antiga novela Saramandaia um sujeito que punha formigas pelo nariz; nem ele chegou ao extremo de comer pó de pedra.
 Ah, não. Devo parar com o vinho. Não volto a bebê-lo até que a Véia Figena me livre dessa praga. Eu, hein, Rosa? Estou lá para sofrer travamentos do esfíncter anal ou padecer dores tenebrosas na hora de me livrar do bolo de pedra? Ao que a fisiologia ensina e a prática demonstra, posso comer uma farofa bem soltinha, mas no momento da liberação a farinha vem aglutinada... Xô!
Quá! O meu saudoso e deveras sábio avô tinha uma advertência de proveito comprovado, útil, até indispensável, para a boa conduta na vida: “passarinho que come pedra sabe o c... que tem”. Portanto, e como sei o que tenho, não vou, decididamente, comer pó de pedra para apreciar todas as nuances de gosto e aroma que um vinho pode conter. A alternativa é largar o vinho de lado. Tô fora!
- Véia Figena, Èleko! (*)
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(*) “Socorro!” – em Nagô ou Iorubá