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terça-feira, 31 de julho de 2012

LILITH E EVA... QUE MULHERES!


            A lenda de Lilith foi deliberadamente apagada da memória dos povos. Seria um mito de origem suméria ou babilônica que, consta, figura na Cabala hebraica - tratado que, entre um ror de simbolismos, conteria o sentido secreto da Bíblia. Conforme a tradição, era o protótipo da mulher fatal; lindíssima, altaneira, sensual ao extremo, envolvente, sedutora e, para maior alindamento da sua história, muito levada. Diz-se que viva no Jardim do Éden antes de Eva e foi a primeira esposa de Adão. Este seria meio frouxo e, como todo frouxo, um machista de quatro costados. Ora, para um marido assim, a esposa menos indicada seria a adorável Lilith, que era muito independente e tinha PHD na arte de fornicar, do que Adão não era exatamente um adepto.
Daí o inevitável: Lilith abandonou o Éden e foi viver alhures. Alguns falam que foi expulsa do Jardim por discordar das prescrições sexuais ali vigentes:  Lilith não queria ficar por baixo de Adão durante o... ato, como previa o Regimento Interno; outros afirmam que o espírito independente de Lilith bateu de frente com o dito regimento, que vedava o livre-pensar. Assim e como ambas as condutas tipificassem o crime de desobediência, ela foi expulsa. Também já ouvi que Adão, ser primitivo, só queria emprenhar a linda consorte e cumprir preceito do verbo multiplicar, contra o que ela reagiu, porque era muito vaidosa da própria silhueta. De todo modo, Lilith deixou o Jardim e foi preciso construir a nova comodatária do Éden, donde surgiu Eva, a feiosa. A saga de Eva é por demais conhecida, tanto quanto a do povoamento do mundo.
Como nesse terreno tudo são lendas, fico à vontade para falar de uma outra, da minha lavra: Lilith e Eva eram usufrutuárias simultâneas do Jardim Parque Éden. Eva, moldada às pressas pelo incorporador  do Jardim, saiu mal arrumada e fria; Lilith, primorosamente esculpida pelo gênio Paá-Vir-Ahda, adversário do incorporador, era um tantão de mulher . Adão, obviamente, se encantou com Lilith e deu um chega-pra-lá na Eva. Justamente o que pretendia Paá-Vir-Adah, um pândego sacaneta, que adorava molecagens e gostava de atrapalhar os planos do incorporador. Daí, justamente, o desterro de Lilith.
            Do que precede, por essa ou aquela razão, o establishment  religioso teve motivo para apagar Lilith do romanceiro do Gênese, e se concentrar em Eva. Isso me lembra uma façanha stalinista: Laurenti Béria era chefe da polícia secreta de Stalin, o celerado; caiu em desgraça e foi executado. E para que o povo russo se esquecesse de Béria, Stalin mandou recolher todas as enciclopédias e compêndios escolares existentes no território e reescrevê-los... sem o verbete “Béria”. Não sei se a comunidade soviética se esqueceu do sujeito, mas a comunidade religiosa se esqueceu de Lilith.
            No final das contas, Parque Éden desandou em revertério: Eva comeu a maçã e deu no que deu. Feiosa ou bela, Eva não era a songa-monga que se esperava: foi a primeira insurgente da História e se revelou, tanto quanto Lilith, uma livre-pensadora corajosa. Entendendo-se capaz de determinar a sua própria vida, arrostou o Regimento Interno do Jardim e mandou tudo pras cucuias, dizendo: - Ninguém me diz o que fazer, pombas! 
            Por essas e por outras é que não vou muito com essa coisa de dogmas e peias. E encaro Eva como heroína, a mulher que revelou ao mundo a maior atributo do ser humano, qual seja, o de pensar livremente.

            É onde eu te falo...         

segunda-feira, 30 de julho de 2012

COISAS PRIMITIVAS


             O boi tem quatro estômagos, ouvi dizer. Prodígio? Não. Apenas necessidade de um sistema digestivo especial. Prodigiosas são as autoridades fiscais brasileiras que têm quatrocentos buchos. Pois é. Mais que as pessoas físicas, os empresários reclamam contra a carga tributária a que se sujeitam. Com razão uns e outros. A queixa procede. Políticas fiscais primitivas são próprias de governantes ineptos e administradores rudimentares, para quem governar é uma peça em dois atos: tributar e aumentar os tributos. Fazer o quê?
            As empresas brasileiras fazem o diabo no afã de abrandar a fome tributária nacional – sem êxito, porque o Parlamento, fraco e interesseiro, não quer desgostar o Executivo, que lhes abre as torneiras politiqueiras. Desiludidos, os empresários inventam saídas que lhes atenuem o desembolso – nem tão grande, afinal, visto que repassam ao consumidor cada extorsão que lhes faz o governo, como é notório.
            A mais nova idéia, que leio nos jornais, foi idealizada pelos vitivinicultores gaúchos: eles querem, via tributação forte, encarecer o vinho estrangeiro, na suposição de que isso fomentará o consumo dos vinhos nacionais. Solução que, é quase certo, despertará os sorrisos das autoridades fiscais. É o mesmo que perguntar à saúva se ela quer brotinhos suculentos.  
             No entanto, tenho cá minhas dúvidas de que a proposição gaúcha renderá os trunfos que pretende. O encarecimento do produto estrangeiro não vai forçar, necessariamente, a opção pelo vinho brasileiro; até porque, na proposta dos vinhateiros nacionais, estariam fora do arrocho governamental os vinhos chilenos, paraguaios e argentinos - que são, justamente, os estrangeiros mais vendidos aqui, donde a possibilidade de não ser assim tão saborosa a fatia originada do encarecimento dos vinhos forâneos.
            A medida em questão pode até gerar algum ganho, mas dificilmente ele será expressivo. Barreiras fiscais são faca de dois gumes, todos sabem. Melhor fariam os produtores gaúchos se batessem o pé diante de Suas Majestades, os arrecadadores de impostos. E tratassem de baratear os seus vinhos no mercado interno, pelo menos até que as bocas brasileiras percebessem como são excelentes os vinhos da Serra Gaúcha.
            Reconheço que isso é tarefa de alta carregação: no seu primitivismo, os governantes brasileiros qualificam o vinho (qualquer um) como “artigo de luxo”, ao invés de considerá-lo item normal da dieta – como nos países mais evoluídos mentalmente.
            Por mais, adegas e restaurantes estrelados não deixariam de vender vinhos portugueses, espanhóis, italianos, californianos, da Nova Zelândia, da África do Sul, da Austrália, até do Butão
(não conheço quem já tenha tomado vinho desse lugar, mas por via das dúvidas...). Enófilos abonados e babacas faroleiros não se privariam do vinho estrangeiro por trinta mirréis a mais ou a menos. 
            O grande perigo é que o tiro saia pela culatra: não se pode confiar nas autoridades fiscais brasileiras; se a importação cair um pouco, elas vão, isso sim, espoliar mais a vitivinicultura nacional. Uma coisa é certa: os palácios do poder não hospedam muitos bebedores de vinho, razão da má vontade governamental em incentivar-lhe o consumo. Além disso, há grupos que já divulgam via Internet, até com foros ditos científicos, que Cristo não bebia vinho, mas suco de uva. Só não explicam se de embalagem Tetra Pak.
     
              É onde eu te falo...       

DOENÇA AINDA SEM CURA


Coisa repulsiva é essa excrescência chamada ditador. Nestes tempos de Século XXI, esse bicho deveria ser apenas um verbete no dicionário das monstruosidades para sempre extintas. No entanto, ainda existem ditadores; que vingam graças ao atraso dos povos. A Humanidade precisa evoluir muito antes de erradicar essa praga, mas esse estágio de evolução não se vislumbra nos horizontes do Planeta.
Kadafi, Ceausesco, Brejnev, Pinochet, Mao et caterva, esses, felizmente, já foram pra casa do... pra bem longe; mas ainda devem ao mundo o seu último suspiro fedorento alguns ditadores, inclusive os que amargam prisão perpétua e aqueles que a mídia incensa com o título de... presidente !!!
A bola da vez entre os ogros que não largam o osso, é um sírio. A simpática Síria, que nos mandou tanta gente boa e culinária saborosa, definha a olhos vistos. Cidades, como a generosa Alepo parece a Berlim que os russos devastaram em 1945: um monte de escombros com cheiro de cordite. A guerra civil está em plena efervescência, enquanto a ONU, inoperante e boba, manda os seus fantoches passear nas áreas de conflito a pretexto de arrumar a paz.
Os aproveitadores da guerra - da qual eles próprios acenderam o estopim - já escolheram os seus lados e, como sempre ocorre, usam a Síria como palco das suas quesílias econômico-ideológicas. E dançam a cirandinha de sempre, entre rodeios falsos e muita conversa fiada. Na verdade, os dois polos estão naquela de "eu quero é txum, eu quero é txa..." 
Como o mundo já viu e sentiu, ideologia é um tipo de câncer sem cura. Não há ideologia que preste; todas são podres e fedem mais que o lendário enxofre que, segundo os padres de Idade Média, o Capeta exalava. E o povo sírio lá, morrendo como moscas ao redor das suas casas arruinadas, “ a padecer jugo e vitupério do torpe ismaelita cavaleiro” (apud Camões).     
 Ditaduras são ditas, mas não duram, porque ditadores - que bom! - morrem. Ainda que  tardiamente, como é o caso de alguns, carcaças insepultas, que vivem..., ou melhor vegetam, arrastando os pés, tossindo seco e engrolando palavras ininteligíveis nas bocas desdentadas, onde o cuspe nojento se mistura às gosmas do catarro - inescondível sinal de degeneração. Eternos, como preconizou Mr. James Bond, só os diamantes... 
A boa perspectiva é que o ditador sírio também vai sif..., quer dizer, se danar, mais cedo ou mais tarde. A previsão ruim é que, quando isso acontecer, a Síria acabará entrando no mesmo desatino do Egito e da Líbia, quando os adversários da ditadura, enfim vencida, começarem a brigar entre si pelo poder. Isso não muda.

  É onde eu te falo...
                    
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sexta-feira, 27 de julho de 2012

POR QUE NÃO UMA SOBREMESA VOTIVA?


        Chega-me de Portugal a receita de um doce que reina, sem jaça e contestação, nas mesas d’além mar. Não há festa em que ela, quando chamada, fique revel. Ao fim das ceatas copiosas, ela se apresenta sempre, gloriosamente acomodada em folhudo novelo de fios de ovos. Vem, muito pimpona, na rica travessa de porcelana que certamente serviu a muitas gerações dos antanhos, e espraia o seu corpo amarelo ondulante em  forma de “s” - para que cabeça e cauda não ultrapassem o comprimento da louça.  
            Mas... Que raio de sobremesa tem cabeça e rabo? Pois essa tem. E tem porque o doce é cuidadosamente esculpido no formato da lampreia, peixe da família dos Agnatha, dizem que o mais primitivo dos vertebrados existentes. Como peixe é de uma feiúra atroz, mas como arte confeiteira é digno de um banquete na Mansão dos Bem-aventurados. Quando surge na bandeja, os comensais deliram; ali está uma lampreia doce, cujos detalhes são desenhados com cerejas e creminhos coloridos, olhos, boca, guelras, até escamas e língua. Estamos falando da celestial ... txam-txam-txam-txam... lampreia de ovos! Sim, a lampreia de que só dão conta confeiteiros portugueses de alta linhagem.
            É raro o livro de Eça (sempre ele, genial gourmand!) onde uma delas não apareça na hora do Porto, depois da comezaina de bacalhaus e da frangalhada com ervilhas que sucedem à pratada de
ovos com chouriço. Aliás, vai um conselho: nunca leia Eça com o estômago vazio...
            Pois é. Mas a lampreia de ovos (os mestres da prosódia mandam pronunciar lamprêia (com “e” fechado) é um doce que, no bom jargão lusitano, se pode dizer... bestial ! A começar pela quantidade de ovos que se quebram, de sorte a recolher cinco dúzia de gemas – isso mesmo: 60 gemas!!! Imagino os esgares e horrores que se pintam nas caras de dietistas entojados e seus entojadíssimos discípulos diante de um doce que leva coisa de meia grosa de gemas de ovos!
            É mais uma das delícias “conventuais” da terra de Afonso Henrique, cujos galinheiros, conforme o Guinness Book, comportavam mais galinhas que torcedores no Maracanã em fim de campeonato. Era a época em que monjas e noviças sem ocupação mais rude, se juntavam nas vastas cozinhas dos conventos a inventar gulodices açucaradas, com as quais regalavam padres, prelados e confessores, notoriamente esganados e barrigudos.
Esses religiosos conviviam bem com os pecados veniais, notadamente o da gula. No que estavam certos, acho. Aliás, estavam bem amparados na preleção de Agostinho, grande sabedor das coisas terrenas: “Todas as vezes que alguém toma, no comer e no beber, mais do que necessário, saiba que isso ficará entre os pequenos pecados”. Ora, pois, ninguém vai perder sua alma por conta de pequenos pecados. Então, “m’ninos, aos doces!” Pois é. Se querem, posso-lhes fornecer a receita dessa iguaria admirável.
Andei pensando. Ao tempo do Êxodo, os hebreus desconheciam-na, segundo o Velho Testamento. Mas formulo a seguinte tese: se o povo de Moisés comesse lampreia de ovos, é absolutamente certo que nas suas oblações grelhadas em honra a Yahweh, entregariam às brasas do propiciatório sagrado, além das carnes regimentais, uma bela lampreia votiva, à sobremesa divina. Feita, à maneira kosher, esse doce “desprenderia odores suavíssimos ao Senhor”, acho.

É onde eu te falo...


quarta-feira, 25 de julho de 2012

O croupier, o tico-tico e a Torah


                     Nos manuais de Teoria Geral do Estado se aprendia um truísmo-chavão: “Nação é o Estado politicamente organizado”! E tome estado-isso, estado-aquilo, uma lista enorme, tão ao gosto dos teóricos antigos. Acrescentei a esse rol duas modalidades: o estado croupier e o estado tico-tico. Croupier é o sujeito que, nos cassinos, dirige a banca e recolhe as apostas; e o tico-tico é aquele passarinho praticamente extinto. O Brasil é representante universal dessas duas modalidades.
O Estado Brasileiro banca dezenas de jogos de azar, no que arrecada uma fábula para financiar malandros públicos e privados; são os concursos loto-isso, loto-aquilo, em cuja lisura muitos não confiam. É o estado croupier. Por outro lado, consta que o godero (ou chupim), passarinho malandro, invade o ninho do tico-tico e lhe destrói os ovos para nele botar os seus próprios, os quais são chocados pelo dono do ninho. Bem ao feitio brasileiro. Gente que não tem onde cair morta procria enfezadamente, deixando ao Estado o encargo de manter suas crias. É o estado tico-tico, que a pretexto de distribuir renda, financia a irresponsabilidade sexual dos goderos.
Esse negócio chamado Estado é um caso sério. Tão sério quanto os teóricos publicistas que arrolam, entre as modalidades estatais, o chamado estado teocrático. O croupier e o tico-tico são modalidades daninhas, cujas desgraças potenciais se vão acumulando para explodir a longo prazo; mas o teocrático, esse é uma bomba-relógio, que pode estourar a qualquer momento. O estado teocrático é também regido por leis, mas leis religiosas, não seculares ou profanas. A teocracia tem um dono, bambambã especial que tem contato direto com uma divindade, da qual ele é intérprete e confidente. Assim, pode decretar o que lhe der na cabeça, alegando que são ordens da tal divindade. Um trem doido!
Israel, além das suas crises externas, lida com um sarilho doméstico que pode azedar mais suas aguadas démarches diplomáticas pela paz: o Partido Kadima, ninho de judeus ultraortodoxos, rompeu com o Governo Netanyahu. Motivo: o Parlamento hebraico discute o projeto que acaba com a regalia dos fanáticos religiosos quanto à prestação do serviço militar. Judeus ultraortodoxos são isentos do serviço militar, que em Israel dura dois ou três anos, privilégio que o Estado quer extinguir – não só por pressão da própria comunidade israelita, mas também pela situação nacional relativamente aos seus vizinhos ismaelitas.    
Israel e Ismael brigam há milênios. Sarah, mulher de Abrahão, tinha o ventre seco; Abrahão, galo reprodutor, emprenhara Agar, donde o nascimento do pequeno Ismael; tudo ia bem até que Sarah, por ordem divina, concebeu Isaac; imediatamente Abrahão repudiou a amante Agar e o pimpolho Ismael, expulsando-os da tribo. A partir daí começaram as escaramuças.
Tirante qualquer juízo sobre às políticas israelenses, uma coisa é certa: Israel vive em permanente estado de guerra. Certo ou errado, Israel está em guerra e nessa contingência precisa, como qualquer nação em guerra, das suas forças armadas. Então é estranho e inadmissível, que uma determinada casta israelense cruze os braços e se escuse de pegar o fuzil. Afinal, como no adágio, guerra é guerra...
Bom, cada um se entende a seu modo – dizia André Cavaleiro na Ilustre Casa de Ramires, pela pena do iluminado Eça. Mas por que os ultraortodoxos não querem vestir a farda e portar os petrechos de guerra? A resposta é simples, dada pelos líderes ainda mais ultraortodoxos que o seu estático rebanho: “Os nossos jovens religiosos servem à nação por meio de estudos e orações” !!!                
Pois é. Reza e leitura da Torah “fecham o corpo”: se guerreiro palestino (por exemplo) aponta a metralhadora contra um desses jovens estudiosos/rezadores; bastará que este se esconda atrás do rolo da Torah e grite: “No dia da adversidade me esconderei no pavilhão do Senhor!” Pronto. Está a salvo das balas!
Fico a imaginar o destino de Israel governado pelo Kadima. Mazel Tov, Kadima!

É onde eu te falo...

           


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Ouvir o galo cantar sem saber onde

            Grandes jornalistas fizeram e fazem a glória da Imprensa nacional. Não é preciso citá-los nominalmente, porque a comunidade de leitores assíduos os conhece de sobra. Mas tem cada um que... faça-me o favor.
            No Estado de Minas de 22/5/12, pág. 12, um repórter conta que a Polícia abateu “três suspeitos em tentativa de assalto a um posto de combustíveis no Bairro do Cambuci” (sic). O leitor racional atina logo: três indivíduos que pareciam estar tramando o assalto foram mortos pela Polícia. Sim, porque eram apenas suspeitos de tentar o assalto.
            No entanto, mais adiante, diz a nota que “armados, os criminosos renderam dois clientes e dois funcionários e começaram a recolher o dinheiro dos caixas e das vítimas” (sic, de novo). Justamente nesse momento a ronda policial “flagrou a ação e os ladrões tentaram fugir” (sic, outra vez); a coisa desandou em tiroteio, no qual os tais “suspeitos” morreram. É muito!
Ou, como dizia Véi Osório, é munto!
Véi Osório, conheci-o em criança, era mateiro antigo, sabedor de folhas e raízes, que detinha os segredos de garrafadas infalíveis para males de qualquer etiologia, de caspa a desorientação puerperal; sem contar seus extraordinários dotes de caçador e a genialidade para assar uma leitoa.   Quando lhe diziam alguma coisa absurda, ou desencontrada, ele manifestava a sua descrença com uma simples expressão: - É munto! Então perguntavam: - Munto o quê, Véi? Ele respondia, na bucha: - Munto difice di aceitá...
Mas deixemos Véi Osório de lado e voltemos à nota em questão. Positiva e decididamente,
muitos jornalistas não conseguem entender o significado de “suspeito”. Melhor ir ao Aurélio: “suspeito - que infunde suspeitas; duvidoso... que inspira desconfiança”.
            Pois é. Os três “criminosos” (agentes de um crime) rendem clientes e funcionários a poder de armas, e recolhem o dinheiro dos caixas quando são surpreendidos pela Polícia com quem trocam tiros. E ainda são... suspeitos (!) - segundo o autor da nota! Mas, os policiais os surpreenderam durante a própria execução do crime; ou melhor, os “criminosos” estavam praticando o delito. E ainda são apenas meros suspeitos... Tem dó, né?
            No entender do jornalista, portanto, os indivíduos que ele qualifica como “criminosos” e “ladrões”, estavam só idealizando ou preparando o roubo que iriam cometer! Suspeitos... Dá pra agüentar? Tá bom, tá bom. Jornalista não precisa de diploma em Direito. Mas precisa, no mínimo, de procurar saber do que está falando, seja perguntando a quem sabe, seja consultando um simples dicionário. A definição legal de “suspeito” é a mesma definição léxica; não é preciso diploma de bacharel ou doutor em Direito para entender que alguém só é suspeito de um crime enquanto não houver prova objetiva da sua culpabilidade, ou, no mínimo, fortíssima prova indiciária de autoria. No caso dos três indivíduos citados pelo repórter, a prova do crime e da autoria estava feita: os bandidos haviam rendido pessoas com armas e estavam recolhendo o dinheiro. Isso será tão difícil de entender? 
            O repórter entende que se o agente não consegue consumar o crime (como no caso) ele é apenas... suspeito, mesmo que flagrado em plena execução do crime. Então, por que os qualifica como criminosos e ladrões? Já passou da hora de diretores, editores, revisores, copidesques, quem seja, montar um cursinho de “Tinturas de Direito” (ou que nome queiram), nada profundo, para o seu pessoal que se mete a escrever sobre o que não sabe. Ou o leitor é antes de tudo um idiota e pra idiota qualquer besteira serve? Talvez seja isso. De todo modo, para as barbaridades e impropriedades que às vezes saem no jornais só se pode dizer: - É munto!
             É onde eu te falo...

terça-feira, 17 de abril de 2012

AGUACEIRO INDIANO EM MINAS

            
              Depois dos aguaceiros de veranico chegam “as águas de março fechando o verão”, como disse Jobim (o maestro, não o outro). Chuvas são muito evocativas, inclusive de livros e filmes.
As Chuvas de Ranchipur, do americano Louis Bromfield, li-o ainda no ginásio; belo
romance de 1937. Quase vinte anos depois foi adaptado para o cinema, que ainda não contraíra a diarréia compulsiva dos malditos “efeitos especiais” -  tecnologia avançada  que  Hollywood usa como estupefaciente de um público abobalhado e pouco exigente. No filme, esses “efeitos” (que não são uma coisa nova, como muitos pensam) encantam; principalmente quando o aguaceiro afoga a cidade, leva casas no roldão e espatifa gentes, bichos e vegetação.  
            Lana Turner, milionária americana (obviamente) e Michael Rennie, lorde inglês decadente, vivem um casamento falido. Lana é fútil, egoísta e passa a vida gastando dólares enquanto planta chifres descomunais na cabeça do lorde. Em Ranchipur, onde o casal pretende comprar um cavalo (!), ela se apaixona holywoodianamente pelo médico hindu Richard Burton, mané que lhe corresponde ao amor, extasiado com a louraça que lhe dá o maior mole. Ao fim, quando Ranchipur é um monte de escombros, o lorde quer partir; a milionária quer ficar - com o médico. Mas a Maarâni, mulher forte que governa a região, expulsa Lana, fingindo detestá-la; sabe que semelhante idílio é um erro, dado o abismo de diferenças pessoais e culturais que se antepõem entre a milionária e o médico: a americana acabaria regressando ao seu mundo e o hindu, mané chupando dedo, viraria um farrapo e desistiria da clínica médica, mais que nunca necessária aos flagelados locais. Aí, tchan-tchan-tchan... The end.     
            Ranchipur é terra mineira. Águas torrenciais e doidos vendavais (que inspirado estou hoje!) deixaram o Estado em petição de miséria. Cidades inteiras viraram bagaços, esperando as verbas de Brasília que depois de cada desastre anual são prometidas e não chegam. Mas entendo esse nenhenhém: Pernambuco (terra do então ministrinho-das-chuvas) é lugar desacostumado das Chuvas de Ranchipur, de modo que ele, encarregado de espalhar as verbas de socorro, ficou meio perdido e errou nas contas, deixando de lado os outros estados. É natural...
            O que não é natural, acho, é a D. Dilma não ter controle sobre a espalhação das verbas de contingência, logo ela, tão expedita e cuidadosa. Menos natural ainda (e estarrecedor) foi a preservação afagante do seu ministro espalhador de verbas que, não sabendo conjugar o verbo espalhar, conjugou o verbo, antônimo, concentrar.
            Há pontos de convergência entre as chuvas mineras e as de Ranchipur; como há divergências. No filme, a Maarâni protege o Mané e o povo flagelado; Lana Turner, gastadeira desvairada, é expulsa. Na vida real, a Maarâni protege a gastadeira Lana Turner, ao invés de expulsá-la e nem liga para o mané flagelado. Pois é. Nem sempre a arte copia a vida...  

É onde eu te falo...   

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Tudo como dantes no quartel de Abrantes


    Com ligeira saudadinha, vejo  - e ouço, é claro -  a orquestra de Ray Conniff tocando o indefectível Besame Mucho à maneira Anos 60, num admirável arranjo para metais e coro. Acho que a peça era uma das faixas do famoso ‘S Dance, que encantou o mundo, açucarou as horas dançantes de sábado à tarde, e mostrou novas técnicas de harmonia e contra-ponto da chamada música popular.
    Parênteses - Na verdade, Ray Conniff não foi tão inovador assim. Coisa de século e meio antes Beethowen, que já rendera para sempre a arte musical com a Nona Sinfonia, introduzira um arrepiante canto coral na chamada Ode à Alegria. A Nona Sinfonia é o nec plus ultra (*) musical do gênio humano. De fato, ainda que o bicho-homem e sua civilização durem mais um bilhão de anos, nunca ultrapassará, em genialidade musical, essa Sinfonia imortal - fecha.  
    Mas falávamos de Ray Conniff. Não dele propriamente, mas de uma época, de uma atmosfera sócio-polítco-econômico-científico-cultural absolutamente inédita. Mais evolutiva e de efervescências muito mais radicais do que foram os Anos 20, quando se esvaíam as fumaças da 1ª. Guerra e já estava no ar, desde o Tratado de Versailles, o cheiro fedorento da 2ª., que se prenunciava.
    Os tempos de 60 eram diferentes. Eram tempos de inquietação e mudanças. Dormia-se num mundo e se acordava em outro. Estavam em cena os anticoncepcionais, os Beatles, o então chamado amor-livre, a bossa-nova que destronara a canção popular esgoelante, movimentos já da rebeldia jovem, da quebra dos padrões sócio-familiares que não queriam mudar, da derrocada dos fundamentos da sociedade. Tudo isso predizia – desde a vaga dos beatniks, a irreverente beat generation, com seus costumes inéditos – o maior evento contestatório do mundo, o famoso Festival de Woodstock, dos fins de 1969.
    Daí pra frente quase nada resistiria ao vendaval novidadeiro que assolou o mundo. A Guerra Fria, no auge, os desaforos recíprocos entre a Casa Branca e o Kremlin, o Vietcongue afogado em napalm, Mao Tsé Tung esbravejando... Nada obstante, as mudanças aconteciam, frenéticas. Ditadores sucediam ditadores. Cia e KGB brincavam de gato e rato, gastando bilhões para manter as suas agências de informação. Sir Bond 007 surge com “licença para matar”. Brejnev estupora. Gorbachev tira a União Soviética da letargia imposta pela sedação stalinista. Operação Condor prende e arrebenta. Cai o Muro de Berlim. Árabes e judeus incansáveis nas suas escaramuças milenares, surgidas desde que Agar, emprenhada por Abrahão, fora por este desterrada com o pequeno Ismael. Ah, sei lá o que mais...
    Agora a coisa é mais preocupante do que a crise da Baía dos Porcos, quando o mundo esteve, inteiro, à beira de uma catástrofe tipo Hiroshima. Agora o trem é mais feio. O Irã, para reeditar a glória de Ciro, prepara a sua bomba atômica, quando Ahmadinejad já é, ele mesmo, um explosivo de trilhões de megatons.
    Falei de mudanças? Quá! Mudança coisa nenhuma. É a mesma rotina de demências. No fundo, no fundo, a mesma ânsia de confrontação patológica, da qual o ser humano não se desprega, movida pela enfermidade mais letal que existe: a busca de Sua Majestade, o Poder.
    Papagaio! Eu não sabia que ouvir Ray Conniff era tão inquietante. Pensava que o suave Besame Mucho só me recordaria as horas dançantes de 1960 e o affair ministerial - Justiça versus Fazenda - protagonizado por Bernardo Cabral e Zélia Cardoso. Pronto, danou-se! Quem falou que agora terei coragem para ver Cary Grant e Deborah Kerr e ouvir os veludos de Nat King Cole no tema do antológico An Affair To Remember?
    
É onde eu te falo...

(*) Traduza-se por “nada além daí, ponto máximo, supra-sumo, etc”

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

“O trem tá atrasado ou já passou” (*)


Quem não ouviu cantar a Joana? Ela canta lindamente. Faz anos, ouvíamos sua cantiga que lamentava o sumiço do namorado. Abandonada, Joana, “com medo de achar que a tristeza é uma coisa normal”, concluiu: “Meu namorado é um sujeito ocupado, não manda notícias nem dá um sinal”. Pobre Joana! Abandono também padeceram Assis Valente e Carlos Galhardo, na suposição de que “todo mundo fosse filho de Papai Noel”. Lembram? “Já faz tempo que eu pedi, mas o meu não vem...”
            No sumo, as decepções de Joana, de Valente e de Galhardo, têm a mesma índole. São feitas do mesmo ingrediente básico: o abandono. Mas não vou falar aqui, por exemplo, de abandono material, abandono do lar, abandono à própria sorte, de posições, nem mesmo de abandono do gramado no último jogo do campeonato e outras modalidades “abandoneiras” que podem suscitar controvérsias legais, políticas ou esportivas - do que fujo mais depressa do que o Diabo foge da Cruz. Falo aqui do abandono das estradas-de-ferro - sempre com hífen, como gosto, independente do Acordo Ortográfico vigente.
Conto a história como a ouvi de um velho parente, coronel, já falecido. Ei-la, em itálico e entre aspas:
 “O Brasil entendeu que as ferrovias eram dispensáveis. Correu que idéia tão formosa foi cozida na cabeça de Juarez Távora, militar nordestino que tomou muito sol de verão nordestino durante suas campanhas guerreiras.
Ora, os trilhos das ferrovias, numa reta, parecem se encontrar além. Em desenho, é o tal ‘ponto de fuga’. Bem, sucedeu que um dia o General Távora, acantonado nalguma grota espinhenta, largou o fuzil e foi zanzar. Nessa “zanzação”, deu com uma ferrovia; e foi quando percebeu que os trilhos estavam unidos coisa de quilômetro e meio à frente. Eureka! Eis que o general arma um silogismo de rara suculência: “os trilhos sempre se juntam, além; quando se juntam, o trem se espatifa e mata os passageiros; logo, ferrovias são malignas!” Ato contínuo, jurou que mataria as ferrovias nacionais quando lhe dessem o Ministério da Viação, hoje dos Transportes. Cumpriu o juramento”.
Não sei se procede a versão do coronel, mas é notório: a) que o sol de verão no Nordeste é puro fogo; b) que se liga o general à morte dos trens - não dos “trens” mineiros, que são imortais, mas daqueles que andam nos trilhos.
            Falaram num trem-bala-brasileiro. Que idéia!  Não temos os trens regulares; já não temos o Vera Cruz e o Santa Cruz, os Noturnos, os Rápidos, não temos os Expressos nem os Mixtos (assim se chamavam os trens mais populares). Não temos sequer um trenzinho de bitola estreita, tirante aqueles que levam turistas abobados... e pensamos num trem-bala!  Com atraso, Dona Dilma, mais pé no chão, diz que vai gastar zilhões para reaviventar alguns ramais ferroviários comuns, destinados ao transporte de gente. Pena é gastar essa fortuna para o trem que havia, e passou. Stanislaw Ponte Preta teve uma premonição? 

(*) - Stanislaw Ponte Preta, no "Samba do Crioulo Doido"

É onde eu te falo... 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Solta a franga e mostra o pau


 
O Brasil e os brasileiros, até por gratidão, têm o dever cívico de defender e enaltecer a Imprensa. Não faz muito tempo, a mídia vem “soltando a franga”, perdendo o medo de por a boca no trombone. Com isso fez a Nação acordar. Foi como a campainha do despertador. O povo que dormia  -  em berço não tão esplêndido, mas bem comodista  -  acordou, jogou as cobertas para o alto e gritou: - Isso mesmo! Cauterizem os podres governamentais! Abram os armazéns onde se empilha a canalhice que desconhecíamos!
E grande parte da comunidade nacional (os que tem acesso à informação) passou a devorar os jornais à cata das mazelas do dia. Entre perplexo e vexado, o povo sentiu na boca o travo da culpa de ter sido tão conivente, e tão alienado, diante da enxurrada de maroscas que se praticavam  dia e noite nos porões e salões dos Poderes da República.
Sozinha, a imprensa americana destronou Mr. Nixon. Quem pode, pode.... A mídia nacional ajudou, sim, a derrubar governos, mas não foi ela quem acendeu os estopins. Independente de cogitações sobre a prestância  dos Governos Vargas e Goulart, por exemplo, é certo que eles caíram também pela mão da mídia; mas a alavanca da queda de Getulio foi a tempestade armada por Carlos Lacerda, como a de Jango se deveu à inquietação militar, abertamente empalmada por alguns governos estaduais. A mídia só fez divulgar o que se tramava; e, não há negar, jogando algum sal nas feridas... que já encontrou abertas.
A Imprensa não existe para destruir governos. Mas, como titular da informação, não pode se limitar a superficialidades. Tem o dever de ir a fundo na podriqueira oficial. Vejam-se os Ministérios Nacionais, onde Fulano manda hoje e Sicrano amanhã. É elementar: não fosse a exposição dos malfeitos desses ministros destituídos, eles ainda estariam lá, na sua cátedra ministerial, metendo os pés pelas mãos e arrotando honestidade. Então, palmas para a Imprensa, em lugar de censura; ou de "regulações" como andam rosnando por aí. Ela já sofre as suas limitações naturais...
Só não me venham dizer que a senvergonhice  é uma novidade nas Cortes Brasileiras. Muitas falcatruas foram costuradas também nos governos anteriores, desde Deodoro. Se as havia no Império, não sabemos, porque a Imprensa ainda não cuidou desse tema. Mas as duas Repúblicas não passarão ilesas e envoltas em mantos santificados. Seja como for, antigamente as trapaças eram menores e mais espaçadas; havia mais medo e a safadeza não era endêmica. Era episódico o que hoje é institucional.
 Hoje, desde a soltura da franga, a Imprensa não é só informadora; virou uma ratoeira muito eficaz: vasculha; investiga; não fecha nariz e olhos; acende lanternas na escuridão governamental; usa lupas de alta capacidade e, ainda que a poder de fórceps, traz à tona o pus fedorento que envenena os Poderes Estatais.
Sendo assim, faço as seguintes proposições:
a) Para o seu Ministério, D. Dilma Rousseff só escolhe essas coisas; 
b) Não há outras coisas dentre as quais ela possa escolher;
c) “a” e “b” são corretas;
d) Nenhuma das proposições acima é correta.

É onde eu te falo...