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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

LENDAS E MITOS - delícia dos livre-pensadores



Houve divergências quanto ao faraó que detinha as Duas Coroas ao tempo do êxodo dos hebreus. Uns poucos apontaram Meremptah ou Merneptah, 13º. filho de Ramsés II; outros sugeriram Pepi I. No entanto, predominou, com os louros de proposição majoritária, a corrente que indicou Sua Majestade Graciosa Ramsés II, o grande, neto de Ramsés I e filho de Seti I.
A opinião de que Pepi I detivesse o trono egípcio ao tempo do Êxodo é historicamente inaceitável. O só fato desse faraó pertencer à VI Dinastia o tira da liça. Essa dinastia foi a última do Antigo Império, que findou mil anos antes da travessia dos hebreus rumo a Canaã: é provado documentalmente que a emigração dos hebreus do Egito seu de por volta do Século XIII AC, e Pepi I governou o Império por volta de dois mil anos Antes de Cristo; a esse tempo nem se formara ainda a grande colônia hebraica em terra egípcia.
Quanto a Merenptah ou Merneptah, a coisa tem contornos anedóticos. Quando lhe abriram o sarcófago, encontrado nos finais do Século XIX, verificaram-se manchas brancas na sua múmia. Ah, pra quê! Embora os próprios judeus se mostrassem reservados a respeito, a Cristandade entrou em delírio santo: - Meremptah morreu no mar! – esgoelavam as coortes cristãs no auge dos seus sagrados delírios, pois entenderam, e divulgaram, que as tais manchas brancas eram pura concentração de cloreto de potássio, clássico elemento do mar; e das cozinhas.
Pronto! A cama estava feita. Que faraó morreu no mar? Só um! Só ele, que perseguia os judeus retirantes e foi tragado pelas ondas quando Moisés parou de hipnotizar o Mar Vermelho, no qual ele abrira um vasto carreiro para a passagem do Povo de Deus!
Choveram aleluias em todo o Planeta. - Mordam suas línguas venenosas, gentios! O Livro Sagrado não mente! Tudo que está na Bíblia é verdade, ó insensatos! – berravam os “Pregadores da Palavra”, inundando as nações com seus perdigotos santificados. E era, de fato, um achado, aquela “evidência” de um faraó afogado no Mar Vermelho, muito conveniente para comover os cabeças-ocas de sempre. Mas, a História - notadamente a egípcia, tão detalhada e documentada em pedra e papiro - nunca registrou um faraó morto por afogamento! Sim, mas porque a Humanidade não estava preparada para receber essa revelação divina com certidão de autenticidade – diziam.
- Os desideratos divinos não se mostram facilmente comprováveis, já que o Criador prefere que essas comprovações, Aleluia!, se evidenciem pela fé! – berravam. - Mas eis que um dia Ele, segundo os seus divinais critérios, decide mostrar a verdade, e eis que o Faraó do Êxodo exsurge das trevas, demolhado em sal marinho, para confranger os descrentes, Aleluia! – urravam. Virou um auê só. A múmia de Merenptah dava foros de realidade histórica às lendas do Livro de Êxodo.
Mas a exultação durou pouco. A Ciência desmistificou a louvaminha. Acurados exames de laboratório provaram que as manchas brancas no cadáver mumificado de Merenptah se deviam ao natrão, Na2.Co3.10H2O, um composto de carbonato de sódio, bicarbonato de sódio, sal e sulfato de sódio, larga e notoriamente empregado na Casa dos Mostos para desidratar os tecidos e combater às bactérias! Todas as mumificações do Egito antigo eram feitas com o emprego do natrão...
- Oh, maldita seja essa Ciência, que nos vem contradizer! – murmuravam os arautos cristãos. Se a praga pegou, não sei, mas a Ciência, maldita ou não, só tem avançado no trabalho salutar de desmanchar mistificações religiosas. O tempo passou e os pregadores se quietaram, sem jamais esconder o desgosto de ver os cientistas, inda uma vez, roubando-lhes os trunfos de mais um mito; e um mito de enorme potencial político/econômico...
Certo é que egiptólogos, historiadores, arqueólogos e similares endossam seriamente que o Faraó do Êxodo era Ramsés II, filho de Seti I. Afinal, há certeza histórica de que foi Seti I, o sábio, quem iniciou a construção de Pi-Ramsés, cidade do estuário ultimada por seu filho Ramsés II, que para lá transferiu a sede do governo egípcio – fugindo da influência daninha dos sacerdotes, casta delirante amontoada em Tebas. E, embora não se possa, racionalmente, dar crédito integral às notícia do Livro de Êxodo, sabe-se que foi durante as obras de Pi-Ramsés que o neto (pelo lado materno) de Seti I, o príncipe Ptah-Mose, matou um operário e se escafedeu para as terras de Madian – de onde, depois de roubar o sogro Jethro, retornou ao Egito com o nome de Moshe, ou Moisés,  casado com a saborosa Séphora, a legendária safira madianita. Aliás, Séphora de Madian, graças ao diretor Cecil B. De Mille, passou a se chamar Yvonne de Carlo...   

É onde eu te falo...
  

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

QUEM ACHA VIVE SE PERDENDO (Noel Rosa)



A gente somos inútel! Inútel. A gente não sabemos escolher presidente! A gente não sabemos tomar conta da gente! A gente não sabemos nem escovar os dente! A gente somos inútel!

             Essa grita do Ultraje a Rigor é velha, mas a gente continua “inútel”. Não se esperava mais de uma gente entupida de “cidadania”. Foi o que fizeram com o brasileiro: despejaram-lhe baldes de “cidadania” pela boca, até vazar no rabo e dessa terapia safada surgiu um ser perfeitamente brasileiro, a verdadeira “brava gente brasileira” - rebotalho “inútel” , ao qual,  como vítima de nefasto assistencialismo, basta comer e evacuar.     
Grafei entre aspas a cidadania derrancada com que o Governo moldou esse tipo disentérico-cidadão. Intoxicado de bolsas, contenta-se com os caraminguás “democráticos” custeados por empréstimos absurdos tomados da rede bancária, do que resulta impagável gigadívida interna. E os babacas acham que tudo está muito bem. Para cérebros do tamanho de um grão de painço está mesmo. Afinal, o bicho é ignorante e imediatista.
Sociólogos de galinheiro, para justificar a diarréia de bolsas, dizem que essa ignorância e esse imediatismo vêm do longo tempo de obscuridade social.... Concordo, até. Discordo é da canalhice de se aproveitar dessa situação. Ao invés de dar cultura séria e meios de renda, dão-se bolsas. Aí o sujeito permanece ignorante, remedeia o estado de penúria e se torna manipulável. Que candidato malfeitor não quer um colégio eleitoral desse naipe? Si o povo ficá isperto num vota mais ni nóis, né?
Daí, tome bolsa! É bolsa-geladeira, bolsa-gás, bolsa tpm, bolsa-mau hálito, bolsa-crak, bolsa-disfunção erétil, bolsa-menopausa, bolsa-isso, bolsa-aquilo. Então, o paspalho, afagado por esses enganosos carinhos-de-serralho, acha que isso é cidadania. Sem contar que, além de ignorante, o paspalho é malandro: não percebe aonde o velhaco do Governo quer chegar, mas tem a malícia inata do acomodado que canta: deixo a vida me levar, vida leva eu... Quem não se lembra daquele sujeito que cantava: não quero outra vida pescando no rio de jereré ? Pois é assim. Nessa modalidade de vida, o malandro do jereré dizia: se compro na feira feijão, rapadura, pra que trabaiá?
E continua o baile. Povão burro é um manjar celeste para certos governantes. Pois um trânsfuga desenganado, que vegeta ao lado do caixão aberto, não governa certa nação? Um caduco  mumificado não governa uma outra - por interposta pessoa? Não tem uma aloprada que para disfarçar a sua incompetência vive desafiando certa marinha de guerra que já mostrou do que é capaz? Tem exemplos de sobra; tem de tudo. E esse “tudo” vai continuar defecando na retranca - no que é phd – enquanto as enfermidades sociais forem cultivadas e os enfermos, na sua burrice, estiverem gostando; e achando uma beleza. Até a casa cair, o que um dia vai acontecer. Vai achando, vai, ô mané... Famoso poeta notívago, que ia dormir quando “o apito da fábrica de tecidos vem ferir os meus ouvidos”, já avisou, faz tempo: quem acha vive se perdendo.

É onde eu te falo... 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

BAILE DE MÁSCARAS



A diligência da Wells Fargo corre pela estrada poeirenta rumo a Sacramento. Então, numa curva súbita surgem bandoleiros mascarados que pretendem roubar o cofre. Eles trazem sob os olhos lenços que lhes cobrem o rosto dos olhos para baixo. Aí matam o cocheiro e o guarda, mais um ou dois passageiros, pegam o cofre e somem. 
            No fim, apesar das máscaras, os meliantes são descobertos e, enquanto bebem no saloon, são devidamente abatidos pelo eficiente Colt Navy .45 do “mocinho” - que ganha a filha única do fazendeiro rico ou a herdeira espoliada pelo banqueiro sem-vergonha. Saborosas e recorrentes cenas nos velhos westerns que se assistiam com um saco de pipoca e outro de amendoim pralinê - igualmente saborosos.
            Nas películas de Hollywood, a máscara era um expediente para ocultar a identidade do vagabundo. E assim na vida real; mas antigamente. Hoje os criminosos usam malhas que lhes cobrem toda cabeça, deixando apenas aberturas por onde espiam o desenrolar do crime. Isso quando eles fazem questão de ficar incógnitos; há salafrários que não têm essa preocupação. Cínicos, agem de cara limpa. Brasília está “assim” deles.
            É de ver como o mundo evoluiu! Outrora os tralhas queriam o anonimato, pois tinham medo da lei. Hoje, nem tanto, embora receiem a exposição na mídia e, ultimamente, os juízos criminais que, depois da Ação Penal n. 470, deram de ficar menos tolerantes.
            O Ministério Público é um órgão enfezado. Age com denodo contra os canalhas brasilienses – não apenas nos libelos acusatórios, mas, e principalmente, nas investigações que fazem em prol do interesse público. Sim, porque o órgão também tem o poder da investigação criminal. Aliás, é o que vem decidindo o Supremo Tribunal Federal, por exemplo, no julgamento publicado em 22/10/09, sob relatoria do Min. Celso de Mello.
            No entanto, e até porque existem decisões em contrário, “Brasília” se precata: nasce o projeto de lei cuja finalidade é retirar, aberta e definitivamente, essa competência do Ministério Público.
            Claro! Se investigam a fundo e conforme o “doa a quem doer”, muito vagabundo travestido de “Varão de Plutarco” pode ser “desmascarado” e condenado a qualquer momento, embora criminoso desse naipe não use -  literalmente falando - máscara. É de espantar? Não. Canalhice é mal sem cura. E assim, safados ilustres - autores e defensores desse projeto - consideram que é um grande perigo para a República deixar o Ministério Público vasculhar o lixo brasiliense. Esse povo não tem limite. Parece coisa da Infâmia & Cia. Ilimitada.
            Os brasileiros poderiam, mesmo, levar a cabo - objetiva, literal, radical e materialmente - o conselho de Voltaire: Écrasez l’infâme ! – esmagai o infame!
              
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

PRECOGNIÇÃO



             
Depois vêm os céticos dizer que o sobrenatural não existe. Deu no Der Spiegel, semanário importante na Europa, mais ainda na Alemanha: Pieter Brugel, de Flandres, e Salvador Dalí, o catalão, não eram somente dois pintores geniais, mas videntes poderosos.
É o que revelam documentos recentemente encontrados no Mercado de Pulgas de Londres pelo pesquisador Yshov Namata, judeu nipônico de muito prestígio na CHAZE, Comunidade Histórico/Acadêmica da Zona do Euro, com sede em Antuérpia, na Bélgica. Esses documentos, por gritante coincidência, estavam juntos num envelope. Um escrito e assinado por Bruegel, outro por Salvador Dalí. Quem os teria guardado? E por que juntos?  Não se sabe. Mas o que esses documentos contam causam perplexidade. Aliás, causam vertigens.
            Bruegel, em 1º./01/1563, ainda na metade do Século XVI, pintou O Cego ; conforme o escrito encontrado por Namata, a tela retrata a antevisão que teve o pintor, há exatos 450 anos, daquilo que seria o brasileiro de 1º./01/2013. À época de Bruegel, o Brasil era ainda incipiente colônia de Dom João III, que acabara de suceder ao venturoso Dom Manuel. Extraordinária premonição!
            Mais assombrosas ainda são as coincidências – inclusive quanto às datas - que unem os dois artistas, de histórias, técnicas e épocas tão diferentes, os quais, no entanto, tiveram praticamente o mesmo presságio. Pois Dalí, exatamente em 1º./01/1963, justos 400 anos depois de Bruegel, pintou uma antevisão que teve. Somente após a descoberta de Namata o mundo se inteirou do motivo da famosa tela do catalão, aquela que tem três relógios meio derretidos, um numa galha seca, um em cima de paredão e outro como sela do que parece um cavalo-sem-cabeça: o quadro, conforme manuscrito do próprio pntor, representa o que seria o Brasil de 1º./01/2013!   
           Agora vê! Um pinta o brasileiro e o outro pinta o Brasil, ambos num primeiro de Janeiro (de 1563 e de 1963), os dois prevendo uma situação tenebrosa que ocorreria do outro lado do mundo em 1º./01/2013! Por que cargas d’água os dois pintores fixaram exatamente o dia 1º. de Janeiro de 2013 como marco?  A resposta mais plausível foi dada por Rajwahpapuh, o faquir de largos saberes: ele acha que nessa data estavam entronizando criminosos condenados em altos postos da República. Será? Não sei.  
Mas sei que é fantástica, descomunal, prodigiosa, a percepção extra-sensorial (desprezo absoluto pelo Acordo Ortográfico), ou precognição, de que eram munidos os dois artistas! O cego de Bruegel é um mamulengo que nem olhos tem, mas somente as respectivas cavidades, vazias; e a tela de Dalí, com suas tortuosidades, fala de devastação. Noutras palavras, os cegos permitiram...      

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

DEMOCRATAS E NEFELIBATAS - impropriedades vocabulares


  A)             Dona Tereza Cruvinel, se não está devastada nas agonias de um climatério enfezado, surtou de vez. Na esmagadora opinião da comunidade mundial Hugo Chavez é nada além de um reles ditador, qualificação que a dita senhora, no “Estado de Minas” de ontem, contesta com uma pérola mal costurada: segundo ela, o açodado venezuelano não é ditador, já que ele sempre governou dentro da “ institucionalidade existente ” !!!
Institucionalidade existente... Para não usar uma locução interjetiva de caçanje, digamos: - Papagaio! 
Dona Tereza finge ignorar que a “institucionalidade venezuelana” foi arranjada conforme a vontade do próprio Chávez, cujos maiores predicamentos – além da feiúra extrema – são a arrogância e a velha prepotência bolchevista. Ora, faça-me o favor! Então, o sujeito arruma a golpes de foice uma “institucionalidade” deformada, que impõe à nação a golpes de martelo e, se governar dentro dessa institucionalidade  não pode ser considerado ditador... Ô dona Cruvinel, tem dó, né?
O verme Stalin tinha lá, também ele, a sua institucionalidade; o sifilítico Hitler, igualmente; os ferozes Videla e Pinochet, idem; até Castro, o das gosmas caquéticas, impôs a Cuba a sua... institucionalidade. Portanto, o que vale ter em mente são as características da institucionalidade. Na matilha de lobos, como entre as hienas, mesmo na tribo dos macacos de Tarzan, há uma. Viu o que faz a diferença, Dona Tereza? 
           Segue-se, pois: é pura falácia a sua informação de que “a democracia venezuelana” está aparelhada para enfrentar bem o desaparecimento de Chavez. Que democracia, madame? 
                                                                       
B)           Quando Roberto Jefferson pôs a boca no trombone e divulgou o “mensalão”, a guarda pretoriana do Governo se eriçou no Congresso. E os parlamentares – envolvidos ou coniventes – esgoelaram diatribes e maldições, não somente contra a oposição impassível, mas contra qualquer brasileiro naturalmente estupefato diante das safadezas até então escondidas no fundo da Geena Brasiliensis. Eles achavam que o só fato de assuntar sobre a inteireza moral do Governo era justa razão de insultar o duvidador.
Naqueles dias escuros, que uma oposição vadia, ou de rabo preso, tornou trevosos, um dos oradores mais candentes na negativa de trapaça entre Executivo e Parlamento era Roberto Saturnino Braga. Com um colarinho três números acima e, supõe-se, sem Corega na dentadura, ele, entre nuvens de perdigotos, berrava como se atacado por mil escorpiões: “É tudo uma deslavada mentira! Não somos nefelibatas!”
Pedi socorro ao Aurélio. Nefelibata... Ora, essa! Quem vive nas nuvens está lá em cima; no fundo da latrina, lá em baixo, não há mesmo nenhum... nefelibata.

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

ATO PENITENCIAL



            Monstruosidade Gramatical – foi o que cometi no texto “Diferenças”. Talvez por estranha ligação com  “à toa”, me saiu um “à esmo”, perfeitamente absurdo. Perdoe  o leitor. E, caridosamente, leia “a esmo” . Preciso ser mais cuidadoso na revisão. Desprezo o Acordo Gramatical, mas não o uso correto da crase. No mais, confirmo o que disse das mostruosidades políticas que apodrecem o mundo.   

DIFERENÇAS...



Em Cremona, ali pelos Séculos XVII/XVIII, fabricavam-se os violinos que levam o selo de uma família ilustre: Guarneri. Hoje um Guarnerius (nome latinizado) vale milhões.   
Pois viajava eu pelo Google à cata dessa ifamília de luthiers, quando tive a infelicidade de encarar um sujeito nada ilustre:  um tal Gianfrancesco Guarnieri. A semelhança dos sobrenomes deve ter sido a causa da náusea que me veio. Há anos detesto esse elemento. E conto a razão disso.

           Aconteceu faz tempo. Acabava de sair a primeira, talvez a segunda, edição da revista Marie Clair  (nem sei se ainda existe) que eu folheava à esmo num salão de cabeleireiro. Nem pude cortar o cabelo; tive uma crise de vômito. A causa disso foi, além do sentimento de repugnância, a indignação: era o elemento em questão afirmando que chorara copiosamente quando morreu Josef Stalin, o rato-de-esgoto do Kremlin !!! 
          O tal elemento, segundo a revista, era grande ator/diretor, além de poeta. Poeta... No meu tempo de ginásio conheci grandes artistas, inclusive poetas – que, enquanto se desoneravam, escreviam formosas trovas  nas portas das privadas:
                    Você que só caga fora,
                    Por que que não caga dentro?
                   Você tem a bunda torta
                   Ou o cu fora-de-centro?
            Ah, que primor!
            A ousadia de jogar pelas ondas de Hertz tão mimosa trova é nada comparada à do tal ator/diretor/poeta que, num assomo de ódio, resolveu insultar a Humanidade ao apregoar a sua tristeza pela morte de um suíno hidrófobo, a besta comunista que matou mais russos do que Hitler matou judeus  - fato que certas falanges fazem questão de não saber. E, no entanto, esse elemento chorou. Chorou, gente! Verteu cascatas de pranto convulsivo no auge de suspiroso orgasmo ideológico. Pra quem gosta, um prato feito...
Ainda estão por aí alguns filhotes da besta russa; uns arrastando os pés no rumo da cova, outros esperando a extrema unção com o caixão ao lado, outros enfedecendo o Planeta com seus focinhos arreganhados e suas tiradas simiescas. A sorte do mundo é que nenhum deles vai durar para sempre; vão todos pro sac... quero dizer, pra tumba, pra baixo da terra.
É... A terra tem consumido muita podridão, tadinha.

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

OUTRA FACE DO PORTUGUÊS GENIAL



            Às vezes leio nos jornais aguados artigos sobre Literatura, os quais o articulista recheia de termos empolados e pouco inteligíveis que ele pinça a esmo dalguma apostila de rudimentos de sociologia e psicanálise, nos quais respinga a esgarçada ideologia dos falsos intelectuais. E é de ver como o entendido, num pó-pó-pó afetado, se contorce no afã de mostrar - inutilmente - que ostenta láureas e PhD em Letras. O leitor é conduzido a um cipoal de coisas vãs, que o autor do texto torna mais indevassável com seu linguajar desconexo, de propósito feito para mostrar falsa erudição e ocultar uma aparatosa superficialidade. Aurélio diz que isso se chama “vanilóquio”.
            Não faz muito, li coisa assim sobre Guimarães Rosa, onde o entendido  se espraia em banalidades de Lacan e até do dispensável Brecht. Ele estava, explicou, preparando um livro onde “fazia uma releitura” do Grande Sertão: Veredas. É de rachar. Incapaz de escrever o próprio livro, o sujeito faz "releitura" de livro alheio. Pura embromação. Esse tipo, o “releitor”, é como o chupim, ou godero, que invade o ninho do tico-tico e lhe destrói os ovos, para ali botar os seus próprios – que o tico-tico vai chocar.
            Assim acontece até com professores universitários de Literatura, que, por exemplo, comentando Eça de Queiroz, não vão além de generalidades sobre Os Maias  e O Crime do Padre Amaro, para dizê-lo um demolidor da Igreja e da sociedade portuguesa dos fins do Século XIX – o mais elementar que se pode dizer sobre o grande escritor: apenas truísmos. Esses são como os que foram a Roma numa dessas excursões econômicas e voltaram especialistas em Michelangelo só porque, num relance de cinco minutos, viram (espiaram) o teto da Capela Sistina.
            Nunca vi um desses especialistas falar sobre o Eça observador/analista/comentador/historiador, que criticou com rara ferocidade a política expansionista/colonialista que incendiou a Europa recém industrializada e fê-la cair como um bando de lobos faminto sobre as terras levantinas e africanas. Não falam do Eça liberal que combateu com fervor a brutalidade inglesa na Irlanda e no Afeganistão. Não, eles não falam disso. Não falam porque só leram, sob a orientação simplista dos seus mestres, dois ou três romances do genial português e nem se lembram, se algum dia o souberam, que ele também escreveu as magníficas Cartas de Inglaterra.  
            Nesse livro a Inglaterra padece. Santo Deus, como Eça cai de pau na Inglaterra, agora não com sua ironia fina, mas com o vitríolo da indiganção assomada  -  notadamente no célebre, e triste, episódio em que, no governo de Gladstone, os couraçados do Almirante Seymour despejaram sobre a indefesa Alexandria “os seus canhões de oitenta toneladas”. Quem quiser saber um pouco mais da história econômica do Século XIX, que leia as Cartas de Inglaterra. Eça esteve no Egito e foi testemunha das atrocidades britânicas, como da falácia do kediva egípcio Ismail-Pachá, das negaças do sultão Abdul-Hamid, o grão-turco, e dos fracassos do nacionalista bem intencionado Arabi-Pachá.
            Em certo trecho ele escreve que desde a abertura de Suez a Inglaterra sonhava com “um pretexto para assentar na terra do Egipto o seu pé de ferro, essa enorme pata anglo-saxônica, que uma vez pousada sobre território alheio, seja um rochedo como Gibraltar, uma ponta de areia como Aden, uma ilha como Malta, ou todo um mundo com a Índia – nenhuma força humana pode jamais arredar ou mover.”   
            História, teoria política, economia, sociologia, enfim, um panorama geral da Europa do seu tempo.
Eça descreve com a autoridade de quem viveu a época em que a demência efervescente surtou Inglaterra, França. Alemanha, Áustria, Holanda, Bélgica e Rússia, açuladas pelo terror que lhes inspirava Bismarck, chanceler e “morfineiro” terminal. Conheceu de perto os atropelos da corrida expansionista. A destruição de Alexandria pelos ingleses é contada em detalhes  - e, maior bem, na suculenta linguagem eciana. Um livro fantástico.
Quem ler verá, além do mais, que a falácia de Hirohito, arrancando sobre Pearl Harbour enquanto o seu Ministro das Relações Exteriores fingia negociar com Roosevelt, não foi uma novidade no campo diplomático: as potências européias tinham em andamento a Conferência de Istambul, justamente para “estudar a questão egípcia”, quando Seymour estraçalhou a pobre Alexandria. Como se vê, ler é preciso – mas ler coisa que presta, não porqueiras folhetinescas como O Código da Vinci.  

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

E A BÍBLIA TINHA RAZÃO II



            Tirante os fanáticos religiosos, ninguém mais que eu gosta do Velho Testamento. Aliás, os esgoeladores de milagres gostam mesmo é do Novo, para mim uma sensaboria. Mas leio as Escrituras Velhas sem uma gota sequer de religiosidade; faço-o como diversão cultural.
            Deliberadamente escrito como epopéia de grandiloqüente de movimentos épicos, o Pentateuco, como, de resto, todo o Antigo
Testamento tem sintoma de rapsódia. Neles transparece sem remédio a digital mitológica, o sobrenatural primitivo que encharcava o seu redator. Melhor dizendo, redatores. Segundo a  opinio doctorum  (*)  - isenta de teologias e outros palpites - dados os gritantes anacronismos históricos que encerram, as claras diferenças de linguagem e estilo, mesmo os detalhes que apontam morfologias gramaticais diversas de um livro para outro e até no mesmo livro, é ingenuidade, ou má fé, dizer que os Livros de Moisés são obra de um único autor. Na verdade, resplandece que esses livros são obra coletiva, escrita por muitas mãos, em diferentes épocas. O que, absolutamente, não lhes tira o encanto.
            Pena é que os Jerônimos, Irineus, Theodósios, Dâmasos e outros enxeridos houvessem raspado ou inutilizados muitos manuscritos da época, aqueles que não lhes endossavam as doutrinas obsediantes; entre eles um ror de páginas que esses primeiros padres, num rasgo de atrevimento criminoso, atiraram ao fogo por serem... “apócrifos”. Como se os que preservaram  pudessem mesmo ostentar selo de excelência DOC  ou ISO.  Em nome da fé, esses desocupados arrogantes sumiram com boa parte da resenha mitológica – fraudando a Humanidade que, eles decidiram por sua alta recreação, não merecia por os olhos em textos heréticos...
            Mas nem tudo foi apagado ou alterado pelos tais Doutores da Igreja Ancestral. Ficaram coisas das quais eles não se deram conta, por descuido ou por ignorância. Dentre tantas, gosto de apontar uma passagem deliciosa. Ei-la, adiante.
Como redator da sessão legislativa que daria aos hebreus a Consolidação das Leis de Yahweh, Moisés subiu para os morros e lá ficou. Quando desceu, trazia uma coletânea de decreto-leis, dentre eles o Levítico – saboroso corpo de prescrições de ordem social, legal, econômica, filosófica, sociológica, política, sanitária, e coisas mais. Ler e reler o Levítico é garantia de ótimo divertimento. Por exemplo:    
Yahweh era um gourmet. Aliás, atentos à quantidade de bichos que os hebreus lhe assavam nos propiciatórios sagrados (dos quais se desprendiam “cheiros suavíssimos”), alguns preferem qualificá-lo como gourmand – que leva mais em conta o volume de comida. Fosse como fosse, Yahweh legislava sobre culinária; também. Assim foi que ele separou, na fauna da época, os bichos que os judeus podiam comer; e, claro, os fora dessa destinação, por serem impuros. Veja-se em Levítico XI -13 e 19  a relação desses últimos, dentre eles certas aves abomináveis (sic)  – como o... morcego !!!
Homessa! Então, morcego é ave, na subida opinião de Yahweh ! A comunidade Científica discorda de tão formosa qualificação, afirmando – em claro ato de blasfêmia – que esse bicho tão injustamente associado às Trevas, é, como todos os da Ordem Chiroptera, mamífero. Pois é. Dizem que a Bíblia é a pura palavra de Deus. Então, se Yahweh falou que morcego é ave, ave ele será, desde a origem e para sempre. Se palavra de rei não volta atrás, palavra de Deus não se discute. Bom, de qualquer modo, morcego assado não há de ser lá grande coisa e, portanto, Yahweh fez muito bem ao torná-lo proscrito da culinária hebraica.
            Gosto muito dos morcegos – não daqueles de Brasília, que chupam sangue. Assim, e como estou fazendo um sério estudo sobre as deficiências de polinização da flora nacional, minha meta agora é achar... ovos de morcego. Para chocar, claro.

(*) Opinião dos doutos           
            
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sábado, 22 de dezembro de 2012

A FERVOROSA (um conto, para variar)



            Lina da Venda, como se conhecia Bertolina Maltagliata, não era dona da venda. O pequeno armazém era do pai, filho de colonos que deixaram o Veneto nos fins do Século XIX. Encostado por conta de mijacão deformante, o vendeiro Oreste Maltagliato delegou os quefazeres do comércio a Lina, que virou Lina da Venda. Assim e como cismasse um vago parentesco com  Santa Catarina de Siena, tornou-se uma beata irredutível, daquelas que comem e bebem milagres e divindades, encharcada de uma religiosidade a todos os títulos patológica. Até na venda.
             Lá, enfeitava paredes e prateleiras com santinhos, cópias de orações a isso e àquilo, cruzes e imagens, os quais louvava melosa e demoradamente quando a vendinha estava vazia e antes de aviar os pedidos da freguesia. Um quilo de café?, dois quilos de fubá?, meio quilo de cebolas? – sim, ela tinha; só que antes de entregar a mercadoria ao freguês, este era instado a rezar com ela; conforme a lua, era obrigado a cantar ladainhas e “oremus” - o cliente, constrangido, meio em bocca chiusa, ela aos berros. Enfim, era a única venda do lugar; fazer o quê?
            Com o tempo o fervor religioso da Lina não se limitava às quatro paredes da vendinha, mas voava aos quatro ventos; em casa, na rua, nas casas que visitava e, claro – agora em tremeliques repicados – na igreja. E numa rezação sem fim, a cantoria desenfreada, Lina só dava descanso à boca quando dormia. Mas nem sempre: durante o sono vinham-lhe querubins e serafins, vestidos de rosicler, surgidos em meio às névoas da madrugada, com quais ela rezava e cantava as costumeiras latomias. Eventualmente, era freqüentada por íncubos, seres noturnos que lhe vinham acochar; nessas noites o sonho virava pesadelo, ela se debatendo entre o horror à luxúria e os reclamos da tesão, para depois se acasalar com o ente maligno, uivando no embate do coito enfezado. Aí seus cantos eram os do orgasmo copioso, berrados em meio a grunhidos arfantes e rilhar de dentes.   
O padre local, a pedido família, dos moradores da vila e por si mesmo, tentara, sem êxito, aplacar-lhe o furor religioso: – Baixa o facho, Lina! Exageros não são do plano de Deus! Exageros viram manias e manias deságuam em doenças, algumas sem cura – ele aconselhava. Quá! Cada manhã Lina cada dia surgia mais dominada. Acabou que na igreja, era como se fosse uma sacerdotisa tresloucada. Escolhia os cânticos, entrecortava os ofícios berrando hosanas e aleluias, inventava ritos e desautorizava o padre, intervindo-lhe nos sermões para encaixar coisas que lhe pareciam de alto fervor. Ousava cantar num Latim macarrônico, com especial devoção lingüística quando dava de entoar o Tantum Ergo no kyrie  ou o Ave Verum Corpus na homilia, subvertendo a liturgia. Chegou ao cúmulo de, em tarde de fervoroso Te Deum, interromper as rezas para situar Maria Madalena como esposa de Calígula e proclamar Cleópatra a “a maior felatriz  de Sodoma”. Decididamente, Lina endoidava a olhos vistos.
Corria o Advento. Lina, nas agruras do climatério, surtou: deu de, ela sozinha, fazer a cena da Natividade. Arranjou vestimentas de todos os figurantes, os quais ela mesma representaria. Trocava-se na sacristia e voltava ao presépio armado no altar, ora vestida de Maria, ora com a túnica de José, ora com os ornatos dos Magos, às vezes fantasiada de ovelha, vaca e burro. Até que, sendo o Menino Jesus, entrou no presépio vestindo apenas fraldas e uma camisa-de-pagão. Foi um rebuliço infernal, inclusive porque os homens puderam ver, pela vez primeira, as coxas da Lina e vislumbrar-lhe os contornos peitorais, que, embora caídos, fizeram sucesso. No pandemônio, o padre desmaiou.
  Passada essa fase, Lina ficou impregnada dos mistérios da transubstanciação. Cismou de consagrar as hóstias. Aí o padre embicou. E explodiu: dela tolerara tudo, compreendendo-lhe a enfermidade, para evitar a cizânia (na verdade temia perder as gordas espórtulas que lhe dava Oreste Maltagliato, que, indiretamente, subvencionava os desmandos devocionais da filha). Mas Lina ultrapassara os limites: Chega, sua maluca!  Consagrar é ato privativo do padre, entendeu? Espumando raivas, ameaçou excomungá-la. E, prevendo desatinos futuros, pediu e obteve da Cúria um interdictum prohibitorium  que a impedia de entrar na igreja. Aí, justamente, Lina chegou à demência absoluta.
Então, para se vingar do padre que não lhe queria conceder o privilégio de consagrar hóstias, desandou a consagrar quanto se fazia de farinha e fermentos. Entrava nas casas e consagrava pão velho, resto de broa, bolachas, o que encontrasse. Quando o povo, amedrontado, lhe cerrou as portas, Lina invadiu a padaria da vila e consagrou quatro cestos de pão francês, 29 baguetes e 18 roscas-da-rainha, sem contar as fornadas inteiras de pão-de-queijo, quebra-quebra, rosquinha de amoníaco, biscoito de polvilho e brevidades. Preventivamente, consagrou até massa posta a levedar. E, como era tempo de Natal, consagrou 33 panetones!
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            Lina, hoje agnóstica, está internada em nosocômio na Região das Vertentes; ainda. Abandonou a idéia de ser sacerdotisa e virou livre-pensadora. Expulsou também os querubins e os serafins da noite. E, na sua cabeça, se casou com Asmodeus, a quem trai com dois ou três íncubos sacanetas.

É onde eu te falo...