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sábado, 1 de dezembro de 2012

AI DOS PASSARINHOS INSENSATOS...



            De Vargas a Jango, foi a casinha feita de guloseimas, como a da história de Joãozinho e Maria; nos governos militares virou carro alegórico, cujo tema era o Tesouro de Golconda, a instituição dos salários régios dos “Príncipes da República” – título que antes pertencia aos antigos funcionários do Banco do Brasil; de uns anos para cá é um “barracão de escola de samba”, onde o zabumba da bateria marca evoluções de alas e passistas que dançam o lundu partidário. Eis, ao que consta, a carreira da Petrobrás.
            Passou por mudanças de perfil mas  (também consta) nunca se livrou do seu estigma de nascença: a incompetência administrativa. A Petrobrás, como os católicos, já nasceu com o “pecado original”, fadada à gestão de apadrinhados sem tino – curiosos enfatuados com pose de gênios. Além disso, consta que... Mas, não! Acho que estou dando muito ouvido ao que consta. Creio que há exceções. Claro que há; sempre há, principalmente se procuradas com uma poderosa lente de aumento.         
            Seja como for, não se atina com todas as razões (verdadeiras, não de embromação) que levam uma grande empresa, que vende produtos fundamentalmente essenciais para a vida moderna, a viver em constante apertura financeira. Motivos há. Cessão quase gratuita de combustível brasileiro a “países amigos”; conchavo político-ideológico para presentear governo alinhado com o direito de invadir e “nacionalizar” bilionárias instalações pagas pela empresa brasileira; desvio de fundos para fins nebulosos, patrocínio de festivais de mau gosto, por exemplo, estão entre esses motivos, conforme consta - fora os que... não constam. 
            A voragem fiscal, típica do Brasil, leva o Governo a por as montadoras em regime de produção de guerra, porque a ordem é explodir as estatísticas da compra e venda de veículos. O país se transforma num apocalíptico novelo de carros que trafegam dia e noite. O Brasil engarrafa; e não sai do lugar. Antes foi a ordem aos bancos para financiar veículos em até 500 meses. Deixe que comprem! Brasileiro é burro; não olha o custo do automóvel; só verifica se a prestação cabe no seu orçamento!  Ora, arrecadar é preciso; e cada vez mais. Afinal, o custeio da máquina estatal hipertrofiada não é batatinha. Pois não transformaram o Estado brasileiro num “vasto paquiderme”? (a expressão é de Machado de Assis). 
            Então, a inexorável lei de causa e efeito desce o porrete: malfeitorias geram malfeitos. Políticas rudimentares não deságuam em mar de rosas. E assim o consumo de combustível chega ao patamar da estupidez. Resultado: o Brasil não tem combustível suficiente para enfrentar esse desatino. E la nave va...
            E estou, muito refestelado, lendo a minha VEJA, quando viro a folha e dou com quem? Será que é a... Não, deve ser a... Pois não sei quem é. Parece uma improvável mistura de Morticia Adams e Maga Patalógica, mas não sei. Não concluo até bater os olhos na legenda. Ah, sim, agora reconheço. Ora, que memória a minha! É a Graça Foster, presidente da Petrobrás, mandando aos brasileiros a sua doce mensagem natalina: o preço dos combustíveis será majorado em 15% !!!
          Disseram-me que ao Brasil falta tenência, além de um pouco de humildade. E fico pensando: seria bom que os brasileiros se lembrassem das singelas verdades da gente do mato; matutos e mateiros, sempre sábios, têm um lema como diretriz de vida: “passarinho que come pedra sabe o cu que tem”.   
             
            É onde eu te falo...

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A ELIMINAÇÃO DA BESTA



Folheando velha revista encontro a Seleção Romena de Futebol que disputou a Copa da Fifa em 1994 e encantou o mundo com seu estilo - leve, rápido e elegante - de jogar bola. Assisti a alguns jogos dessa equipe no salão do Hotel Tanharu, à época o único da então serena (não sei se ainda hoje) Praia de Castelhanos, no litoral capixaba. Os brasileiros, estávamos eufóricos naqueles dias de moeda forte e futebol gostoso de se ver. Bons tempos. Da Seleção Romena, três jogadores me ficaram na memória, pelos seus nomes, típicos a mais não poder: Dumitrescu, Popescu e Petrescu. Mais romeno que isso só Bucareste.
Então surge a inevitável lembrança de outro "êscu"; não simpático quanto os citados, mas nojento e safado: Ceausescu. Que traste, aquele; melhor dizendo, aquilo. O canalha "governou" a Romênia de 1965 a 1989, nomeado pelo ogro pestanudo Leonid Brezhnev - segundo os mui democráticos preceitos bolchevistas. Ceausescu foi escolhido justamente pelas suas belas virtudes: era sem-vergonha, ladrão, sanguinário, brutal, assassino e peçonhento, ou seja, um verme com todas as características fundamentais dos ditadores.
O biltre (bela expressão) desonrou a bela Romênia por 24 anos. Até que os romenos decidiram se dar um belo presente de Natal: mataram-no em 25 de Dezembro de 1989. Executaram-no como a um cachorro hidrófobo: sem problemas de consciência. A parte boa da Humanidade aplaudiu. Na Internet se encontram vídeos dos últimos momentos do tralha e da grande festa que os romenos fizeram em louvor do formoso evento.
 Todo ditador deveria ter esse fim. O Planeta agradeceria e o Chefe das Fornalhas Infernais (se o Inferno existisse) entraria em orgasmo cívico. Pena é que alguns morreram de morte natural; maior dó é que alguns ainda não foram enterrados porque estão vivos – só teoricamente: na verdade, são vegetais em claro estado de putrefação, abantesmas que mascam a gosma fedorenta que excretam, mas não cospem – no que fazem um bem enorme à higiene do Planeta.
Pois é assim. Ditador é aberração. Ditador, mesmo quando chamado de premier ou presidente (!!!), é nada além da besta monstruosa que, só por viver (mesmo teoricamente), comete crime continuado de lesa-humanidade. 
           Sei de “democratas” que babujam a genitália desses ditadores e lhes seguem a cartilha !  Embora certos brasileiros sonhem com esse posto  infame, o Brasil, felizmente, não os tem - os ditadores; mas está "assim, ó"  de... ba-bu-ja-do-res.
           
É onde eu te falo...
     

sábado, 24 de novembro de 2012

TODOS PARA O BREJO (NÃO SÓ A VACA)



  Pois Benedictus XVI, que também é Bento e igualmente dezesseis, de notório conservador, virou novidadeiro: decidiu apagar das cabeças católicas uma tradição que sempre lhes foi tão cara: despejou do Presépio hóspedes que, faz séculos, nele vinham passando as Festas de Natal. Dixit Pontifex, disse o Pontífice: -Presépio não tem bicho!        
Sua Santidade, com assistência do Espírito Santo, tem o dom de, pela Igreja, falar ex cathedra sobre “doutrina de fé ou costumes” (sic) -  outorga do Apóstolo Pedro, consolidada em mandamento constitucional promulgado pelo Concílio Vaticano I, em 1780. Aliás, falar “ex cathedra” pode se traduzir por “falar doutoralmente”; ou seja, em linguagem menos culta: o Papa falou, tá falado. De resto, é esse mesmo o espírito da coisa, tanto que as sentenças papais se erigem em dogmas, ou preceitos indiscutíveis. Justamente por isso é que a Igreja diz, e os católicos repetem: o Papa é infalível!
Pobres católicos! E agora? Como eles vão purgar a irregularidade dos seus presépios domésticos, onde acostumaram juntar espécimes bovinos, ovinos, caprinos e eqüinos (com trema), até mesmo, num rasgo democracia zoológica, o galo que canta à meia-noite, a conclamar – muito a propósito – para a... missa do galo?
É... Sua Santidade arrumou um grande sarilho!
Quem vai, tirante um ou outro papista irredutível, armar o seu presépio sem os bichos litúrgicos, logo eles, portadores seculares de inefável encanto? E como explicar às crianças, os crentes mais gentis e verdadeiros, que neste ano o seu presépio só abrigará a Sagrada Família e (mesmo assim só depois de 6 de Janeiro) os Reis Magos? Não. Positivamente, é um desconchavo. Sem os bichos não há presépio que agüente (também com trema). Ora, já se viu desterrar do cenário natalino os figurantes mais pacíficos e amoráveis? Depois, há pontos a ponderar. Vejamos:
 1 - Se na taipa de Belém não há os bichos regimentais, também não há de ter a manjedoura, quando é fundamental: a) que ela tem a função original de acondicionar a forragem dos próprios e, assim, não havendo bichos não faz sentido ter alfafa; b) que justamente na manjedoura, sobre a alfafa macia, foi posto a dormir o Menino Jesus. A notória manjedoura, portanto, seja no seu propósito originário, seja na sua finalidade derivada, é um estorvo no Presépio Papal.
2 - Demais, se não há os bichos, o Menino Jesus vai se congelar na friagem invernal de Dezembro (naqueles Orientes faz frio no Natal). Então, quem vai bufar sobre o nenê para aquecê-lo? No entanto, conforme a jurisprudência popular, o Menino Jesus definhava, encarangado, quando os bichos se puseram a bufar sobre ele o seu hálito quente, o que o salvou da hipotermia fatal. Só que agora ele não vai ter esse conforto.
3 -  Proscritos os bichos, também não há de haver pastores no Presépio; estes, por serem desnecessários, até impertinentes, nada têm a fazer no local. Vai sobrar espaço na taipa.
É... Sua Santidade despovoou o Presépio!
Tudo isso sem contar que desautorizou um santo de grande prestígio e, consta, de vastos saberes, profanos e teologais. Também é de preceito que São Francisco de Assis, o poverello, foi quem, no Século XIII, armou (em argila) o primeiro presépio da História, em Greccio, no Lácio, e  nele o milagroso frade juntou bois e vacas, carneiros e cabritos, cabras, muares e cavalos. Aliás, fundado no magistério do Coronel-FAB Antônio Frederico Bastos, festejado sabedor das coisas antigas, tenho acatáveis razões para crer que São Francisco colocou no seu presépio também um camelo - de resto, personagem obrigatório nas cenas médio-orientais.                
É... Sua Santidade se encrencou com o Santo de Assis !
Pessoalmente, acho que a novidade papal vai para o atoleiro onde moram as tais leis brasileiras que “não pegaram”. Essa coisa de por os bichos no ostracismo não vai pegar. Como não pegou, ainda, a proibição dos acochos de alcova sem casamento e fora dele; nem, até hoje, a supressão da camisinha.
É... Sua Santidade se colou em cheque...
Inovar é bom, mas... de modus in rebus, diziam os romanos (adoro essa frase). Tradução, para os pouco afeitos ao Latim: mexer em time que está ganhando costuma dar revertério. 

É onde eu te falo...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

RAJWAHPAPUH, FAQUIR DE FORMOSAS FALAS...





Hoje tomei café com um amigo, Rajwahpapu - entomologista por formação e faquir por gosto. Conheci-o na Manchúria, faz anos, quando lá fui estudar a arte de fazer iogurte com leite de camela. Meu amigo nasceu em Udhampur, na Caxemirra, mas como tem nojo das cizânias políticas entre índia, Paquistão e China, que disputam a propriedade da sua terra, fincou pouso numa fraga perdida do Passo Khyber, de onde viaja pelo mundo; segundo ele, para avaliar a inquietante exacerbação das enfermidades mentais que contaminam os governos do Planeta.
Pois Rajwapah, que fala 333 línguas e dialetos, está hoje, só hoje, em Belo Horizonte; ele a sua confortável cama de pregos. Viaja amanhã, pela KLM,  para Glasgow, rumo ao Eire, onde vai assuntar os sinais de fermentação do IRA, depois do que segue para o País Basco, a  convite da Universidade de Bilbao, onde dará palestra sobre os ares empesteados que vêm dominando alguns países sul-americanos. Grande sujeito, o faquir.
É dele o Catálo de Governantes em Geral, cujos originais estão na biblioteca particular do Dalai Lama. Segundo Rajwahpapu é incalculável o número dos “bound-ahm-moll’e” – expressão dele, mistura de hindustani, pashto, swahili e persa antigo, traduzível por governante sonolento, governo aguado, administrador desidioso ; ou como se diz no Deserto do Nefud, em termos um pouqinho mais  rudes, "bound-ah-d'áhguah", governante que sofreu lobotomia. Esse naipe de governante, diz o faquir, domina na rara proporção de  98,79%  do mundo. Papagaio! – pensei. Inda bem que o Brasil figura entre os 1,21% que gozam da eficácia governamental...
Fui desenganado. O próprio faquir me apontou o que seria singela marca desse modo de governar, aqui mesmo, em Belo Horizonte. - Ô quê? Tem certeza, Rajwahpapu?  - Ele tinha. E me provou. Foi assim:
- Sabe aquele túnel de retorno que vocês têm aqui, aquele que passa debaixo da rodovia BR-040, ali pela altura do Shopping Ponteio?
- Pois sei.
- Então. Por conta dos poucos méritos dos engenheiros que o fizeram, a obra foi tocada sem observância dos mais elementares preceitos da Geologia e sem a devida avaliação topográfica.  Sabia disso?
- Não.
- No entanto foi assim. Vieram as chuvas de verão - fenômeno elementarmente previsível, mas não levado em conta - aquela coisa (quero dizer, o túnel) foi entupida por desaterramentos, pedras, galhas, bichos e mais coisas que vieram no roldão da enxurrada, né?
- É.
- Pois fiquei sabendo pelo Daily Mirror (eu estava em Londres), que isso aconteceu em Dezembro de 2.011... Ou seja, daqui a dias fará um ano! Um ano!!!
- É...
Foi quando Rajwahpapu mostrou que conhece perfeitamente o quadro da política mundial. Ele me contou, com relação ao nosso túnel, que os Governos Municipal, Estadual e Federal se limitam a empurrar com a barriga: espicham o bico, espiam, fazem cara de sonsos, e se põem de desentendidos - um jogando a batata quente para o outro, tipo “isso não é comigo”...
- Sério, faquir?
- Claro que é. E nesse não é comigo, não é comigo, o tempo passa e o povo não pode usar o túnel. Para o retorno, é preciso rodar estrada acima até o viaduto do BH Shopping...
- Coisa, hein, faquir?
- Para usar expressão mineira, procê vê..  (O danado do faquir fala mineirês).

É onde eu te falo...

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A PRAGA VERMELHA




            Em culinária há coisas que, mesmo insossas ou passáveis, viram praga. E praga só serve para atazanar, se não for exorcizada. Dou alguns exemplos: o coulis  de vagas frutas vermelhas na sobremesa; o feioso e improvável molho de jabuticaba sobre a ave assada; as barquinhas de folha de endívia recheadas de excessos de alho porro (dito poró), e por aí vai. Essas e outras coisas dispensáveis são hóspedes indefectíveis de 90% dos bares e restaurantes belo-horizontinos (desprezo a tal reforma ortográfica).
            Agora, cá entre nós, praga mesmo é a... txan-txan-txan-txan! ... pimenta biquinho! Ô raio de  frutinha chata, com um rabinho pretencioso, que parece berbigão – este molusco, aliás, delicioso. Mas a tal de biquinho, decididamente, é a própria sensaboria. É tão insípida e tão pouco acrescenta à comida, que chega a enternecer, coitada. Faz vista, sim, vermelhinha e brilhante, passeando entre folhas verdes ou, cheia de presunção, vagando sobre a travessa de feijão-tropeiro, no que é perfeitamente dispensável, se não for importuna. Depois, a danada tem mais sementes que qualquer melancia (das grandes). Aquilo, quando você morde, é uma explosão, arenosa e sem pudor, de sementes: mastigá-las dá um “irk” arrepiante; degluti-las é um sofrimento.
            No entanto, se apresenta nas mesas mineiras como a “cigarra de maior talento” - lembram-se de Olegário Mariano, poeta, constituinte de 1946 e diplomata? Pois é dele a expressão, que calha bem: a biquinho é tão enfadonha quanto os cantares da cigarra... Há um programa em Belo Horizonte cuja proposta era enaltecer as guloseimas de buteco” - programa que desgarrou da idéia original: as gostosuras ligeiras do tira-gosto viraram pantagruélicos almoços, jantares e ceias, para glutões. Haja sal-de-fruta! Essa comezaina, servida em forma de montanha, enche uma gamela - das bitelas. 
Esse evento é o Reino da Glória da tal pimenta. Nele, qualquer carne, cereal, caldo, legume ou folhagem, chega à mesa coroado com um enxame dela, como se fosse um vasto formigueiro - de formigas vermelhas e bundudas; já as vi se metendo à besta (é "munta" audácia) até em sobremesas...
Mas é a compulsão, vulgar e obstinada, do lugar comum que o brasileiro adora. Qualquer coisa nova se torna indiscriminadamente apropriável e usada até enojar. A biquinho surgiu, tadinha, sem vaidade e sem orgulho, sabendo-se pífia e mocoronga; mas era uma novidade para o grande público. Deu no que deu. Virou andaço. Mais que isso, epidemia.

É onde eu te falo...      

terça-feira, 30 de outubro de 2012

INFAMES, TORPES E BOÇAIS




            Considerando a mania antiga de dizer que qualquer um é “meu próximo”, de quantos conselhos inexeqüíveis já ouvi, nenhum é tão absurdo quanto  “amar o próximo” – quando não se distingue esse próximo. Há próximos a quem se deve amor e “próximos” que, até por não serem próximos, merecem o inferno em vida e depois dela. Não é meu próximo, por exemplo, um boçal torpe que faz o mundo feder só por existir; e que fala pela bunda. Não posso amar uma coisa assim; nem os que aplaudem essa coisa – igualmente torpes e boçais. Esses não são gente, mas algo que torna sublime o nojento resultado do purgante intestinal. Quem (tirante ela própria) pode amar a... merda infame?   
Essas excrescências, uma praga, não pertencem ao gênero humano; nem se catalogam como integrantes do mundo animal; animais são seres maravilhosos, que merecem respeito. Portanto, não sendo gentes nem animais, não podem ser amados. Quando Voltaite, o ilustre, recomendou: “Écrasez l’infame!” – massacrai o infame – ele usou “infame” referindo-se ao poder que tinha a Igreja para prender, torturar e matar. De fato, infâmia em grau superlativo. No entanto, menor que a dos torpes boçais. Essa chusma comete crime de lesa-humanidade só por respirar o nosso oxigênio.
A Igreja, que assou milhares de “próximos”, bem que podia tomar tenência e retomar o seu antigo poder de eliminação dolorosa e definitiva – mas, entenda bem, exclusivamente para aplicar o seu furor piromaníaco sobre as excrescências acima referidas, tostando-as, vivas, nas labaredas purificantes. A purificação, aí, não seria das excrescências, porque essa coisa não se purifica jamais; o mundo é que seria purificado. Alguns dão a isso o nome de “profilaxia social”. Seria ótimo, mas tão perigoso quanto uma acha de fogo num barril de nafta: os pirômanos são muito responsáveis pelo alastramento da praga. 

 É onde eu te falo...          

domingo, 14 de outubro de 2012

O QUE É A VERDADE ?



            A Walmo Soares Vianna, que dentre outros predicamentos, é violonista de alto nível, faixa preta e até oftalmologista.

            Lançado pela editora Civilização Brasileira, “As Duas Guerras de Vladmir Erzog” -  o jornalista judeu iugoslavo, que ultimamente vem se hospedando nos jornais. Pessoalmente, jamais acreditei que ele se tenha enforcado com um cinto. Da mesma forma que não engulo o “suicídio” do inconfidente Cláudio Manoel da Costa, notoriamente morto junto à estante (fio-me em documentos da época) em que ele teria atado aos cadarços em que se enforcou. 
            O que me faz descrer desses suicídios? A obviedade. O jornalista e o inconfidente tinham os pés à altura do chão. Ora, o que mata o enforcado nem é a asfixia, mas a quebra do pescoço, provocada pelo tremendo arranco do laço enquanto o executado cai em queda livre. Ninguém, eu acho, se esganaria puxando o pescoço contra a corda até que os pulmões arrebentassem por falta de oxigênio; o instinto de conservação o faria desistir na última hora. Aliás, li que os suicidas, no último instante, quando a situação já é irreversível, se arrependem do seu gesto. Portanto, para mim e independente do que possam achar, Erzog e Cláudio Manoel foram prosaicamente assassinados.
            Conforme entendo, o autor do livro, Adálio Dantas, acaba situando que o jornalista não deve ser elevado aos píncaros de mártir só porque teria sido assassinado no DOI-Codi, mas colocando-o, ao que me passa, na condição de protomártir da luta contra a censura que o governo militar impunha às publicações jornalísticas. Concordo. A esquerda festiva adora um mártir, inda mais quando ele faz parte do seu coro ideológico; um mártir bem administrado rende saborosos dividendos políticos. Mas Erzog foi, e isso deve ser ressaltado, a primeira vítima imolada na escaramuça contestatória da censura, justa razão para que seja devidamente enaltecido e lembrado. Oxalá os brasileiros se guiem por essa luz, ao invés de - como lhes vêm ensinando os corvos ideológicos - considerá-lo, num reducionismo cretino, apenas como opositor ao governo militar. Vladmir Erzog lutou contra a censura, não, própria e simplistamente, contra um regime de exceção.
            Agora, vem cá. O lulopetismo, comandado por José Dirceu, tentou n vezes implantar a mesma censura no Brasil, sob a rubrica de “controle social da mídia” – eufemismo canalha para censura jornalística. Não é de rachar? Essa desgraça só não aconteceu graças à Imprensa e a Ministros do Supremo Tribunal Federal; aquela, através de artigos e editoriais combativos; estes, pela advertência pública sobre a merdeza político-intelectual de semelhante “controle”. O Parlamento, esse, por si, pouco fez.
            Por isso é que digo: a imprensa livre e a “longa manus” da Justiça (se igualmente livre de magistrados comprometidos) são os verdadeiros garantes da Democracia. Dirceu, o mandarim do lulopetismo, aprendeu com Castro e com os ogros da Duma Soviética que só podem circular publicações afinadas com a “intelligentzia” oficial. O Pravda, na Rússia Soviética, e o Granma, em Cuba, são os grandes exemplos desse tipo de imprensa – que não é  Imprensa (com “i” maiúsculo), mas reles variação do papel higiênico (usado)...
            Então, pergunto: se o tal “controle social da mídia” houvesse sido implantado no Brasil, quem seria a segunda versão de Vladmir Erzog? “Pravda” em russo, significa “verdade”, ao que me informam. Pois é, existe mais de uma verdade. Segundo as Novas Escrituras, Cristo teria perguntado: Quid est veritas? - o que é a verdade? Ora, responda, você. 
             
               É onde eu te falo...
    

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

SINAIS PERCEBIDOS POR UM BAMBAMBÃ AMADOR



         
Para Antônio Ferederico Bastos, barbacenense  de São José  dos Campos, coronel da Força Aérea,    fisósofo, filólogo, musicólogo e outros "ólogos", enófilo costumado, doutor em tecnologias muitas e ciências afins; e, acima disso, um sujeito de "acrosiladas vertudes"



            A sociedade brasileira acompanha atentamente o custoso julgamento da Ação Penal 470, que versa o dito Mensalão pelo Supremo Tribunal. E com a mesma atenção, assunta o desdobramento das reações inconformadas que manifestam os condenados semanais e respectivos parceiros ideológicos. Eu já previra aqui esse fenômeno; como, de resto, prevera qualquer pessoa lúcida. Seria ingenuidade imaginar que réus e alinhados acatassem, sem tugir nem mugir, o caudal de condenações que, três vezes por semana, a Corte pronuncia a grosso e a retalho.
No fundo, pouco se me dá que os chamados mensaleiros sejam condenados ou absolvidos. A tarefa de julgar é do Poder Judiciário, não minha. Então, fico naquela: hipótese 1 – eles são condenados; se eu estou de acordo, tudo bem; se não estou, a minha discordância não os absolverá; hipótese 2 – eles são absolvidos; se eu estou de acordo, tudo bem; se não estou a minha discordância não os condenará. Sendo assim, que se arrumem pra lá os réus e os julgadores.
            Todavia, os sinais são inquietantes, a julgar pelas informações da mídia. Os condenados, com o halo santificado de vítimas heróicas, desmerecem as decisões da Corte, dizendo-as falaciosas, injustas, de exceção, parciais, políticas e sem a devida escora probatória; e os alinhados promovem eventos de desagravo àqueles. Ou seja, o sujeito pratica um crime, é condenado por ele e é aplaudido como herói. Se bem entendi, delinqüir enaltece o criminoso!
            Mas, espera aí. Desde quando praticar um crime e ser pronunciado criminoso pela Justiça é razão de aplauso? Acho que estou ficando doido. Até pouco tempo eu supunha que a prática do crime era uma desonra e que o lançamento do criminoso no “rol dos culpados” era uma nódoa. Vejo que estava enganado; e só agora percebo como as coisas são nestes tempos de demência: ser criminoso e ser apenado pelo crime são fatos que engrandecem. Homessa!
            Não era para ser assim. Se o Poder da República encarregado de julgar diz que eu sou criminoso, a sociedade deve aceitar esse pronunciamento, não me encher de loas e cantar madrigais em minha homenagem. Mas não é o que acontece. Os condenados e seus alinhados rugem diatribes contra o Poder Judicante, no que contam, aliás, com jornalistas de grande penetração. Há semanas venho lendo os artigos da Sra. Teresa Cruvinel. Implacável, rude, mão pesada, justiceiro, ou predicados similares, eram o mínimo que ele endereçava ao Dr. Joaquim Barbosa. Quando este, no seu feitio desabrido, informou que “o Supremo Tribunal não deve satisfação a ninguém”, não se conteve a jornalista, com inescondíveis respingos de irritação, perceptíveis nas dobras do seu texto. Disse ela, mais ou menos assim: É, pode ser assim, mas não se deve esquecer da História, que embora chegante sempre atrasada, também faz os seus julgamentos... Pois é. Para bom entendedor...
            A questão é que Brasil ainda não se despregou do pecado atávico de só achar fedorentos os crimes dos marginais de rua e de recalcitrar ante a condenação de figurões. A frase “ sabe com quem está falando? ” ainda tem severos efeitos psicológicos nestas plagas tupiniquins. Efeitos daninhos, claro.
            Tomara que eu esteja enganado, mas me assalta o receio (justo receio, como diz a lei) de um encadeamento de desatinos prestes a desabar sobre a Nação. Parodiando o ótimo Alceu Valença,
“eu já escuto os teus sinais”. Não é exercício de futurologia nefasta; é medo. Medo de quem já viu coisas e tem razões de não duvidar de muitas delas. Costumo ser bom nisso. Aliás, também parodiando, tomo do excelente e saudoso João Nogueira um pedaço de frase para emoldurar os meus poderes de vidente amador: nessas coisas eu também sou bambambã.  
           
   É onde eu te falo...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

TOMA TENÊNCIA, GENTE !




(Para Sérgio Inglês de Souza, enófilo de longo curso, que pensa antes de falar e gosta de regionalismos pitorescos) 

             Esses jornalistas mal informados não se emendam; nem os respectivos editores, que não lhes corrigem os erros escritos e falados. São profissionais da mídia que nunca leram Humberto de Campos; a maioria nem sabe de quem se trata. Arrogantes e orgulhosos dos seus desconhecimentos, escrevem e falam besteiras com a maior desenvoltura; imaginam-se excelentes e supõem que o  leitor é um idiota. Sem medo, nem preocupação, avacalham o idioma soprando os trombones difusores das suas impropriedades lingüístico-gramaticais (notem que não dispenso o trema, cuja supressão decorre de um “acordo gramatical” que desprezo). Mas não há edição de jornal, escrito ou falado, em que esses bocós deixem de mostrar a sua indigência vernacular.
            Hoje, numa leitura rápida, me deparei com três pérolas jornalísticas. Uma, de ordem culinária; duas, de ordem jurídica. Ei-las, a seguir, no mais puro caçanje de jornalista sem tenência.
           Do filé mignon se retira uma porção grossa que vai para a grelha, onde tosta por fora e permanece bem rosada por dentro – aliás, muito ao gosto de Gioachino Rossini, o do Barbeiro de Sevilha. A essa delícia os franceses chamam de tournedos, que vem do verbo tourner (virar-se, girar, volver, etc.) e do substantivo dos (costas, dorso). Nos restaurantes de primeira linha  é personagem obrigatório no cardápio. O melhor que comi me foi servido no hoje extinto Le Bec Fin, no Leme, quando eu, mal entrado na adolescência, estava no Rio de Janeiro. Um sonho, aquele tournedos... A propósito, em Francês se diz “turnedô” - exatamente como o Aurélio grafa em verbete. 
            Pois o famoso prato, principalmente em Belo Horizonte, virou... “tornedor" !  Mas o que vem a ser “tornedor” ? Ninguém sabe. A desinência “dor” sugere atividade, dedicação, especificidade, essas coisas, como do étimo caça vem caçador e de ralo, ralador. Então, não se atina com o que possa ser esse tal tornedor, já que o étimo não existe. Ora, se caçador é o que caça e ralador é o que rala, “tornedor” seria aquele ou aquilo que... torne  – um desatino, pois o idioma desconhece o verbo “torner”. Nem se pense no verbo “tornar”, pois aí o bife seria “tornador” – pior ainda. Francamente, senhores, sobre ser mostra de desconhecimento, é uma injúria culinária, pois não?
            Noutra página do jornal, artigos assinados sobre o julgamento do Mensalão. O signatário apregoa que o Ministro Joaquim Barbosa “pediu” a condenação de José Dirceu! É ignorância em grau superlativo. O juiz não “pede” a condenação do réu: condena-o. Quem pede a condenação é o acusador, no caso, o Ministério Público.
            E no caderno de esportes alguém escreve que o Clube Tal vai “entrar com um efeito suspensivo” contra a condenação do seu atleta pelo Tribunal Desportivo. Aí dói. O que o clube pode fazer é requerer a suspensão temporária dos efeitos imediatos da condenação: o Tribunal, ao receber o recurso contra a decisão condenatória, pode, se lhe parecer adequado, imprimir a esse recurso o efeito suspensivo. Ou seja, não se executa a decisão até o julgamento do recurso. Ah, que coisa mais difícil de entender, hein?
             A última vez que vi alguém “entrar com um efeito suspensivo” foi na roça, lá pros lados de Santana do Garambéu. Zé Laureano, vítima de feroz diarréia, estava naquela de (como na linguagem rude de lá)  “cagar sem o cu saber”; não havia o que lhe estancasse a vasa humilhante. O médico do posto receitou comprimidos disso; nada. Prescreveu comprimidos daquilo; ainda nada. E o Zé, lá, se esvaindo. Já nem se levantava da latrina; não dava tempo.
Diligente, sua mulher, Dona Franquilina, tomou a iniciativa: “Esses remédio de farmácia é inganação. Vô intrá c’o remédio da minha mãe.”  E preparou uma tisana forte de folhas novas de goiabeira que deitou goela do marido abaixo. Pronto! A caganeira secou; foi suspensa. Milagre? Não. Dona Franquilina havia “entrado” com um... efeito suspensivo.

 É onde eu te falo...
           
               
               

sábado, 22 de setembro de 2012

OLHA O PERIGO AÍ, GEEENTE !



            Nos horizontes da Nação já se espalham rabiscos do que podem ser nuvens negras de perigo. Sapadores político-ideológicos – tomara que eu esteja enganado – estão armando artefatos explosivos de alto poder nas bases do Estado de Direito, que repousa na harmonia entre os três poderes constitucionais da República. A decisão judicial, até agora tida (como a voz do Oráculo de Delfos) indiscutível e de obediência irrestrita, pode estar com os dias contados; há sinais de que já se lavra a terra para a semeadura da chamada “desobediência civil” arrimada no desprestígio do Poder Judiciário. 
            Podem-se fazer restrições a este Poder, eventualmente; mas é ele, justamente, o garante da paz social. Desonrá-lo com o ridículo e o descaso é o maior desastre que pode sofrer qualquer democracia. É a implantação deliberada do caos, em cujas retortas fervem os micróbios das ditaduras mais fedorentas.
            A expressão “Roma locuta causa finita” - consta que de Agostinho, o teólogo - reflete à perfeição o postulado político determinante do acatamento e do respeito devidos às sentenças judiciais. Em linguagem coloquial, “Roma falou, tá falado”. Não se discute, não se esboçam revides; simplesmente se curva a espinhela, apesar de qualquer inconformação, que há de ser muda. 
            O julgamento da antológica Ação Penal n. 470 pela Corte Suprema tem provocado comentários. Muitos, de aplauso; uns poucos, de inescondível inconformismo raivoso. Não se quer que suas decisões sejam agradáveis, mas que sejam respeitadas “erga omnes” . Nos tempos antecedentes ao julgamento, o que se viu foram insidiosas tentativas de desqualificar as denúncias da Procuradoria Geral da República, ao argumento, ingênuo ou venenoso, de que o libelo não passava de uma brincadeira de mau gosto, urdida pelas oposições e pela mídia reacionária. Não por outra razão um dos réus da dita ação penal tentou, felizmente sem êxito, implantar no Brasil um tal  “controle social da mídia” - eufemismo descarado para tornar palatável a odiosa censura, tão combatida por ele próprio relativamente ao Governo Militar.
            À medida que o Supremo Tribunal avançava nos passos do julgamento, ouviam-se murmurações inconformadas, que agora descambam para notas em jornais. Teve até um mequetrefe com cara de encantador de serpentes para dizer que as decisões da Corte eram falaciosas. Isso por enquanto. Se e quando a decisão final do STF desagradar mesmo às falanges comprometidas, é lícito esperar a lapidação moral dos Ministros e a conclamação aberta ao motim. O terreno estará propício ao seqüestro das Instituições Democráticas, com o desterro da Constituição da República e a entronização da “lei do cão”. Se chegarmos a esse desatino, espera-se que os guardiões da democracia ergam “da Justiça a clava forte”.
            O Poder, em última análise, é um veneno; o único e eficaz antídoto é a voz do Judiciário. Por isso os Tribunais e o Parlamento não podem se transformar num ajuntamento de qualquer modalidade de... “alinhados” : o resultado será o mesmo dos chamados “governos teocráticos”, aqueles em que a “voz de deus” está acima de tudo. Entenda-se: aí, voz de deus = querença voluntariosa do respectivo... “representante”. Homessa!   

            É onde eu te falo...